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  • Postado por editora em em 10/05/2023 - 10:38

    O livro As festas da abolição no Rio de Janeiro (1888-1908) demonstra como as comemorações do 13 de maio 1888 e ao longo da Primeira República criaram a possibilidade de novos tempos para os contemporâneos, especialmente para aqueles que experimentaram o acontecimento como vitória, expectativa e esperança.

    A pesquisa desenvolvida pela autora e historiadora Renata Figueiredo Moraes através de consultas de registros de 100 anos desta história localizados em jornais de intelectuais, músicos, artistas, moradores da Cidade – de várias cores -, em fotografias, livros e poesias, traz informações sobre a mobilização que envolveu o primeiro grande movimento social do Brasil e apresenta como as festas cívicas da Abolição, tanto nas semanas em torno do 13 de Maio de 1888 quanto ao longo da Primeira República, foram locais de muitas ações de agentes sociais diversos, inclusive ex-escravizados, e suas muitas bandeiras políticas por direitos, significados e memórias.

    Para marcar o lançamento da obra, a autora estará presente na Livraria Blooks de Botafogo, dia 26 de maio, às 19h.

    Confira o Prefácio da obra, do professor Leonardo Affonso de Miranda Pereira (PUC-Rio)

    O 13 de Maio de 1888, data da Abolição da escravidão no Brasil, tem sido, ao longo das últimas décadas, objeto de importantes controvérsias. Ao apontar para o caráter precário e incompleto da liberdade conquistada naquela ocasião, assim como para o destaque conferido à princesa Isabel no ato de suposta concessão dessa liberdade, parcelas significativas do movimento negro trataram, a partir das últimas décadas do século XX, de se afastar dessa efeméride, definindo uma data diversa para celebrar o orgulho negro no país: o 20 de Novembro, escolhido em homenagem à luta de Zumbi dos Palmares. Afirmam, com isso, o protagonismo negro na luta contra o cativeiro, assim como o caráter autônomo e radical dos ideais de liberdade por ele representado – em contraposição a uma vitoriosa memória oficial que, ao longo do tempo, acabou por desvincular a chamada Lei Áurea das muitas lutas dos escravizados por sua própria liberdade.
    É dessas disputas de memória que trata este livro. Sem deixar de corroborar as preocupações e cuidados que alimentaram as críticas às imagens tradicionais sobre o 13 de Maio, Renata Moraes desenvolve uma reflexão que retoma esse debate, centrando-se nos sentidos assumidos pela data em seus primeiros tempos. Baseado em investigação empírica vasta e original, o livro aponta, por um lado, para o início do processo de afirmação de uma memória unívoca sobre a Abolição, que tentava apagar a importância das lutas negras ao longo das décadas anteriores; por outro, para o modo particular como diversos grupos do período, como os próprios trabalhadores negros, trataram de celebrá-la, conferindo-lhe sentidos particulares. Não se trata, portanto, de um estudo sobre o processo abolicionista em si, mas sim sobre o modo como a data da Abolição foi disputada por grupos sociais diversos, em processo que se estendeu pelas duas primeiras décadas da República.
    Surpreende, já de início, a exposição detalhada, na primeira parte do livro, do deliberado esforço de afirmação, por parte das elites políticas e intelectuais o Rio de Janeiro, de uma memória unívoca sobre aquela celebração. Por um lado, a própria família imperial tentava impor sua centralidade no ato através de representações imagéticas e escritas. Ao definir a liberdade como uma espécie de benesse dada pela princesa Isabel aos escravizados, promoveu a celebração da assinatura da lei em uma grande missa campal, buscando ligar a Abolição ao sentimento cristão da caridade e à lógica paternalista da concessão. Ao mesmo tempo, redatores, diretores e proprietários das grandes folhas da Corte, com a pena na mão, tratavam de se colocar, já nos dias seguintes à assinatura da lei, como protagonistas maiores da luta pela liberdade. Sem deixar de assinalar o papel destacado da princesa Isabel, definiam o abolicionismo como um movimento ilustrado, supostamente patrocinado por eles mesmos, desconsiderando por completo as experiências e lutas dos próprios escravizados, definidos como simples beneficiários da benesse alcançada. Configurava-se, com isso, uma memória do 13 de Maio que tinha a família real e os grupos ilustrados como seus principais protagonistas.
    Mais do que afirmar sua perspectiva subjetiva, esses sujeitos trataram de tentar fazer desta memória a própria definição do processo abolicionista. Isso pode ser percebido, por exemplo, nas comemorações oficiais preparadas para celebrar a data. Renata Moraes mostra que, além das atividades religiosas e esportivas, que dialogavam tanto com o catolicismo do Império quanto com as novas perspectivas científicas sobre a necessidade de regeneração nacional através do investimento na cultura física, a comemoração foi marcada pela organização de um grande desfile cívico. Com uma mínima participação de grupos negros, o desfile era composto, em sua maior parte, de representantes da imprensa, contando também com a presença de corporações militares, comissões escolares e associações de imigrantes. Se, na campanha abolicionista, esses grupos podem ter tido atuações independentes, no desfile eles se apresentavam em procissão unificada, que tentava afirmar uma memória única para a data. O que se apresentava, portanto, era uma encenação da Abolição que se pretendia geral e unívoca, marcada pelo protagonismo de grupos ilustrados. Não por acaso, a própria diversidade entre os jornais da cidade era, naquele momento, deixada de lado em favor da tentativa de imposição dessa memória única da “imprensa fluminense”, que tentava transformar uma leitura muito específica sobre o significado da data em sua própria história.
    Se testemunhos como esses serviram de base para a análise de historiadores e cientistas sociais da posteridade, que muitas vezes se limitaram a reafirmar esta memória, Renata Moraes trata de apontar para seus limites e contradições. Na segunda parte do livro explora, para isso, a diversidade de sujeitos e experiências envolvidos na celebração da data, que expressavam concepções muito diversas sobre o significado da nova lei. Em meio a tal diversidade, uma base social clara se impunha: eram trabalhadores muitos dos que tentavam, a seu modo, participar dos festejos. Fosse através de subscrições populares ou de doações individuais, faziam questão de se colocar como sujeitos ativos da festa. Destacavam-se, entre eles, os próprios grupos negros. Ainda que não conseguissem participar dos festejos oficiais da região central da Corte, ou que não conseguissem participar de festas promovidas durante seu horário de trabalho, muitos celebraram a data nos subúrbios e nas zonas rurais, fosse em espaços públicos, em seus clubes recreativos ou mesmo nas fazendas em que trabalhavam. Com mostra a autora, as próprias forma e intensidade dessas celebrações, muitas vezes animadas por batuques e jongos, desnudavam a distância que separava a festa oficial dessas muitas outras comemorações espalhadas pela cidade – na expressão de uma festa que tinha não apenas sujeitos variados, mas também motivações muito diversas, de acordo com o perfil social e étnico de quem comemorava. Por mais que o evento celebrado pudesse ser o mesmo, essa variedade de formas e espaços deixava claro que havia muitas festas dentro da festa, em distinções fortemente marcadas por clivagens sociais e étnicas. Afirmavam-se, assim, no próprio momento daquela celebração, visões muito distintas sobre a liberdade que estava sendo festejada.
    Longe de se equacionar ao longo dos anos seguintes, essa diferença foi ficando mais clara, ano após ano, através do modo como os diversos grupos sociais passariam a celebrar a data. Enquanto a empolgação inicial da imprensa com a efeméride parecia diminuir com o passar do tempo, limitando-se a longos artigos de jornal celebrando a liberdade de forma etérea, nos clubes, salões e espaços religiosos frequentados por trabalhadoras e trabalhadores negros da cidade o entusiasmo com o 13 de Maio se manteve intacto por décadas. Ao acompanhar, na terceira parte do livro, as comemorações da data ao longo dos anos seguintes, a autora indica os diversos caminhos de construção da memória sobre aquele marco, que afastavam ainda mais as celebrações negras da lógica liberal expressa pelos jornais. Mostra, com isso, a importância assumida pela Abolição na experiência desses sujeitos. Apesar dos conhecidos limites e contradições da liberdade que havia sido conquistada em 1888, para esses trabalhadores afrodescendentes era inequivocamente uma vitória a ser comemorada e relembrada, o que tratavam de fazer em seus espaços de lazer e de crença.
    Configurava-se, nesses caminhos, uma memória negra sobre o 13 de Maio de todo diversa daquela celebrada nos jornais – o que mostrava que, passados anos da assinatura da lei, tratava-se ainda de uma efeméride em disputa. Se para muitos tratava-se de simples ato de superação do passado colonial e de ingresso do Brasil na modernidade liberal, sem que fossem alteradas as bases da ordem social, nas celebrações negras a data era associada a uma concepção mais ampla de liberdade, associada à reivindicação de direitos em meio aos primeiros anos da República. Não por acaso, as mulheres e os homens negros que participavam dessas celebrações não apenas relembravam a conquista passada, mas também apontavam para seus projetos de inclusão em uma República que teimava em tentar excluí-los – fosse ao evidenciar a força de seus cantos e danças, muitas vezes reprimidos pelo poder público; ao afirmar seus laços de crença, tanto em irmandades negras quanto em celebrações de religiosidade afro-brasileira; ou até ao reivindicar seu direito de participação política, como mostram, em 1909, certos festejos da data que se somavam à celebração de um deputado negro.
    É essa história de disputas e tensões em torno do 13 de Maio que o leitor tem em mãos. Se hoje sabemos que, ao longo das décadas seguintes, os registros da festa oficial acabaram por deixar nas sombras a memória negra sobre a data, Renata Moraes nos permite compreender o contexto e o sentido original desta disputa.
    Mostra, com isso, que as lutas negras pela liberdade se afirmaram por caminhos diversos, todos igualmente legítimos. Longe de se colocarem em contradição, o 13 de Maio e o 20 de Novembro, quando analisados a partir das experiências e lutas negras, se apresentam como momentos igualmente importantes. Ao se centrar nas festas da Abolição, este livro nos permite não somente acompanhar as formas e lógicas assumidas por essa celebração, mas também refletir sobre as disputas de memória que levaram ao seu esquecimento. São motivos mais que suficientes para garantir um lugar de destaque para este livro na já vasta produção historiográfica sobre a experiência negra no Brasil.     

     

    As festas da abolição no Rio de Janeiro (1888-1908)

    Renata Figueiredo Moraes

     

     

  • Postado por editora em em 27/03/2023 - 16:33

    "O livro que tem diante de si propõe um olhar multissituado, capaz de observar a guerra, os seus contextos e os seus legados a partir de Portugal, dos solos africanos então colonizados e também de outras geografias, como é o caso do Brasil, cujas articulações com esse passado comum, mesmo que diferidas, se tornam aqui evidentes. Ao mesmo tempo, a leitura global desta obra sugere que a compreensão ampla do fenómeno da guerra apenas é possível com um horizonte histórico, para que não se foque estritamente no tempo em que o conflito decorreu e que enquadre dinâmicas sociais mais abrangentes e diversas na sua explicação."

    Dia 24 de abril teremos lançamento da obra na Travessa Pinheiro em São Paulo.

    Confira o prefácio de Miguel Cardina, Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Coordenador do projeto “Crome – Memórias Cruzadas, Políticas do Silêncio: as Guerras Coloniais e de Libertação em Tempos Pós-Coloniais”, financiado pelo Conselho Europeu para a Investigação.

     

    Um passado ainda vivo

    No momento em que escrevo estas linhas, decorre em Portugal um debate motivado pelas palavras do primeiro-ministro, António Costa, durante uma visita oficial a Moçambique. Aí classificou como um “ato indesculpável” o “massacre de Wiriyamu”, no qual perto de 400 homens, mulheres e crianças foram violentamente assassinados, em dezembro de 1972, numa incursão feita pelo Exército português na província de Tete. As palavras foram lidas como um “pedido de desculpas” formal e suscitaram uma discussão sobre a natureza ou a necessidade de gestos de reparação para fazer face a esse passado ainda vivo.
    A guerra colonial e de libertação inscreve-se num conjunto vasto de mudanças internacionais então em curso, em que sobressai o impacto das independências dos povos africanos e asiáticos pós-Segunda Guerra Mundial e um panorama geopolítico que, consoante distintos tempos e lugares, combinou a afirmação de esferas de influência, a ativação de solidariedades militantes e a eclosão de conflitos militares. Nesse novo contexto histórico, a resistência do regime de Salazar em encetar negociações – pedidas por movimentos de libertação antes do eclodir dos conflitos, como ocorreu com o Partido Africano pela Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) – arrastou o país para uma guerra longa em Angola, Guiné e Moçambique. Nos anos finais da ditadura, ficava já claro que aquela era uma guerra impossível de vencer. A breve trecho, viria a ditar o próprio fim do regime.
    A 25 de Abril de 1974, o velho Estado Novo caía através de uma rotura levada a cabo por militares de patente intermédia, que iria desaguar numa revolução que marcou geneticamente a democracia portuguesa. Em solo africano, a luta pela independência viria a consagrar-se como a certidão de nascimento das novas nações. Mesmo Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, que não experienciaram a luta armada no território, acabariam por alcançar as independências no quadro da partilha desse mesmo idioma anticolonial. Nos diferentes países africanos – e não perdendo de vista as significativas diferenças entre si – a luta de libertação e a memória anticolonial viriam a assumir um lugar relevante, conferindo legitimidade a movimentos rapidamente tornados partidos únicos e vanguardas autoproclamadas na construção dos novos Estados.
    Em Portugal, por seu turno, e por um conjunto vasto de razões, a memória pública da guerra tendeu a ser recoberta por amnésias e seletividades discursivas. Entre outros elementos, pesa o facto de a guerra ter sido feita por militares.
    Foram esses mesmos militares – ou melhor, uma parte deles, os que se articularam no que seria o Movimento das Forças Armadas – que desencadearam a mudança política em Portugal, o que inevitavelmente interferiu na reflexão sobre a guerra, nomeadamente no parco questionamento sobre os episódios mais sangrentos. Este elemento articula-se ainda com a persistência de um imaginário que tende a apagar a natureza intrinsecamente violenta do projeto colonial. As raízes históricas dessa erosão memorial são antigas. Com efeito, a linguagem das Descobertas, ainda hoje um tópico dominante a partir do qual se tece o “nacionalismo banal” em Portugal, não pode fazer esquecer o papel tido na escravização de povos africanos e na sua deslocação forçada em direção à Europa e às Américas, com destaque evidente para o Brasil, nem, depois de formalmente abolida a escravização, os processos de trabalho forçado, de roubo de terras, de sobreexploração e violência física e simbólica a que foram sujeitos os povos africanos colonizados.
    A ditadura do Estado Novo não inventou o colonialismo nem o seu uso político, que tem origens anteriores. Mas a ideologia colonial será intensificada e reformulada nos anos de afirmação do fascismo português, acompanhada de uma crescente imbricação entre as economias da metrópole e das colónias e de vagas migratórias, nomeadamente para Angola e Moçambique, que se vão prolongar até ao final do regime. Esta etapa derradeira será ainda marcada pelo redesenhar imagético da relação colonial, a partir dos tópicos do lusotropicalismo, e por uma guerra que duraria 13 longos anos. Desencadeada pelos povos colonizados, a descolonização comportou o reconhecimento nacional e internacional dos novos Estados independentes e uma vaga de “retorno” de portugueses e seus descendentes, ou de ida para outras paragens, como a África do Sul ou o Brasil.
    O livro que tem diante de si propõe um olhar multissituado, capaz de observar a guerra, os seus contextos e os seus legados a partir de Portugal, dos solos africanos então colonizados e também de outras geografias, como é o caso do Brasil, cujas articulações com esse passado comum, mesmo que diferidas, se tornam aqui evidentes. Ao mesmo tempo, a leitura global desta obra sugere que a compreensão ampla do fenómeno da guerra apenas é possível com um horizonte histórico, para que não se foque estritamente no tempo em que o conflito decorreu e que enquadre dinâmicas sociais mais abrangentes e diversas na sua explicação. Sem esse olhar, que extravasa necessariamente o mero domínio político-militar, ficaríamos com uma visão muito limitada das causas e dos efeitos de uma guerra que foi, simultaneamente, a etapa final de uma ordem colonial e o início de um processo de descolonização que não terminou com a consagração política das independências.

     

    Portugal e os 60 anos da guerra em África

    Organizadores: Francisco Carlos Palomanes Martinho, Helena Wakim Moreno, Marina Simões Galvanese

     

  • Postado por editora em em 13/03/2023 - 12:47

    Desde os anos 1990, as Forças Armadas foram recorrentemente utilizadas em ações de segurança pública no Brasil. Como elas se desenvolveram e que impacto tiveram para os militares? Para responder a essas questões, estão aqui reunidas 16 entrevistas com oficiais das Forças Armadas. Em seu conjunto, permitem conhecer a experiência e a visão de mundo de uma geração de oficiais que participaram dessas operações de emprego doméstico das Forças Armadas e para refletir tanto sobre os desafios que elas enfrentaram quanto sobre o legado que deixaram.

    Entrevistas com: General Roberto Jugurtha Camara Senna, Coronel Romeu Antonio Ferreira, General Franklimberg Ribeiro de Freitas, General José Elito Carvalho Siqueira, Almirante Carlos Chagas Vianna Braga, General Adriano Pereira Júnior, General Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, Almirante Reinaldo Reis de Medeiros, General Joaquim Silva e Luna, General Sergio Westphalen Etchegoyen, General Walter Souza Braga Netto, General Sergio José Pereira, General Richard Fernandez Nunes, General Edson Massayuki Hiroshi, General Sergio Luiz Tratz, General Fernando Azevedo e Silva

    Confira parte da apresentação da obra: 

     

    Das GLO à guerra urbana: a trajetória do emprego doméstico dos militares no Brasil (1992-2022)

    Apesar de não ter se envolvido em conflitos interestatais desde a Segunda Guerra Mundial, o Brasil é o segundo país com maior contingente militar nas Américas, após os Estados Unidos, com aproximadamente 356 mil membros ativos nas Forças Armadas. Além disso, para um país que mantém relações pacíficas com seus vizinhos, o Brasil investe significativamente em defesa. Nos últimos anos, o orçamento brasileiro para as Forças Armadas foi o maior da América Latina e Caribe, representando cerca de 45% de todo dos gastos militares na região. O orçamento da Defesa também é vultoso se comparado com o de outros ministérios, sendo consistentemente um dos cinco ministérios que mais custam ao erário.
    Entre as atividades e competências do Ministério da Defesa, além do preparo para a defesa contra ameaças externas e do engajamento em operações de paz no exterior, inclui-se o emprego das Forças Armadas no âmbito doméstico, nos termos da Constituição. As forças podem realizar atribuições subsidiárias que contribuem para o desenvolvimento nacional e a defesa civil ao se engajarem em ações de natureza preventiva ou repressiva, por vezes em coordenação com outros órgãos governamentais. Especificamente, grande parte da atuação doméstica das Forças Armadas se dá no âmbito das chamadas Operações de Garantia da Lei e da Ordem (OpGLO). O emprego das Forças Armadas no âmbito das OpGLO concentra-se principalmente em atividades como o policiamento e o apoio logístico durante as eleições; na segurança de grandes eventos de escopo internacional; na atuação para prover segurança em casos de greves das polícias militares ou no policiamento e em operações interagências para reduzir a criminalidade nas grandes cidades brasileiras, nas chamadas GLO de violência urbana.
    Este livro é um resultado do projeto de pesquisa “Forças Armadas na Segurança Pública no Brasil”, desenvolvido entre 2020 e 2022. O projeto consistiu no levantamento de documentos oficiais do Ministério da Defesa e do Exército sobre o assunto, incluindo legislação e manuais doutrinários publicamente disponíveis, para a elaboração de uma cronologia dos principais eventos relacionados ao tema e, principalmente, para auxiliar a produção de um acervo de entrevistas realizadas entre abril de 2021 e fevereiro de 2022. Esse acervo possui um total de aproximadamente 30 horas de gravação em áudio e vídeo. Foram entrevistados 16 oficiais das Forças Armadas que ocuparam posições privilegiadas na decisão, planejamento ou condução de missões de segurança pública. A maioria dos entrevistados é do Exército, porque esta força é a mais envolvida nessas ações. Há, porém, dois entrevistados da Marinha, especificamente do corpo de fuzileiros navais, também utilizado nas OpGLO.
    Este foi um projeto conduzido durante a pandemia de Covid-19. A equipe envolvida nunca se reuniu toda pessoalmente. Também foi necessário adaptar o protocolo de entrevistas para que os entrevistados pudessem, com segurança, dar seus depoimentos. À exceção das entrevistas com o almirante Carlos Chagas e com os generais Braga Netto e Sergio, todas as demais foram realizadas remotamente, pela plataforma Zoom.
    Os entrevistados eram, em sua quase totalidade, oficiais-generais — militares que, portanto, chegaram ao escalão mais elevado da carreira. Eles ocupavam, no momento da entrevista, diferentes posições: na reserva, na ativa ou reconvocados para funções a pedido do Poder Executivo. É importante frisar que, apesar de algumas menções à pesquisa acadêmica com uma conotação negativa, como se seus resultados fossem geralmente contra a visão dos militares sobre as OpGLO, os entrevistados manifestaram conhecimento e respeito pela FGV e pelos pesquisadores/entrevistadores envolvidos no projeto. Num momento delicado das relações entre civis e militares na democracia brasileira, em que as Forças Armadas apresentam-se com um renovado protagonismo político, não houve, em momento algum, tensão entre os pesquisadores e os entrevistados, e foi possível entrevistar indivíduos com relevância política para além da caserna, como os generais Walter Braga Netto (então ministro da Defesa, ex-interventor federal no Rio de Janeiro e já potencial candidato à vice-presidência da República), Joaquim Silva e Luna (então presidente da Petrobras, ex-presidente da Itaipu Binacional e ex-ministro da Defesa no governo de Michel Temer) e Fernando Azevedo e Silva (ex-ministro da Defesa no governo de Jair Bolsonaro).
    O acervo constituído é bastante rico porque cobre temporalmente as OpGLO desde sua gênese até as mais recentes, e os entrevistados puderam nos fornecer informações sobre suas experiências como oficiais em pequenos escalões ou nos mais altos postos de comando; e sobre a formulação da política, da doutrina até as impressões de cunho mais operacional, que só os militares que estiveram no terreno poderiam conhecer. A maior parte dos entrevistados teve as OpGLO perpassando diferentes momentos de sua carreira e participou de várias ações.
    Nossas entrevistas indicam que as OpGLO impactaram profundamente as Forças Armadas do ponto de vista de sua doutrina de emprego. As fontes de mudança doutrinária advêm tanto do repetido emprego doméstico dos militares quanto das missões de cunho internacional, seja como observadores militares, seja como tropa empregada em operações de paz. Em especial, ao longo da década de 2010, as forças militares e sobretudo o Exército criaram um arcabouço doutrinário, adquiriram equipamentos e desenvolveram protocolos de treinamento para permitir e orientar sua atuação na segurança pública. Desde 2019, as OpGLO na segurança pública vêm declinando quantitativamente e as forças vêm igualmente adaptando sua doutrina.
    Traçaremos brevemente, nesta apresentação, o surgimento e o desenvolvimento das OpGLO no Brasil, avaliando seu impacto na evolução da doutrina do Exército brasileiro. Elas surgiram e evoluíram ao longo dos anos a partir de demandas do Executivo, foram colocadas em prática pelos militares no exercício de sua execução e impactaram substancialmente as Forças Armadas, o Exército em particular, do ponto de vista doutrinário.

    Forças Armadas na segurança pública: a visão militar

    Organizadores: Celso Castro, Adriana Marques, Verônica Azzi, Igor Acácio

     

     

     

  • Postado por editora em em 22/11/2022 - 08:28

    A II FESTA DO LIVRO NA UFF ou II FLUFF acontece em sua segunda edição, entre os dias 29, 30 de novembro e 1 de dezembro.

    A primeira edição realizada em 2019 foi um sucesso. Reuniu 40 editoras nacionais e mais de 5 mil títulos.

    A II FLUFF vai acontecer nas dependências da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Campus Gragoatá, nos Pilotis dos Blocos B, e C.
    Endereço: Rua Prof. Marcos Waldemar de Freitas Reis, Bairro São Domingos, Niterói - RJ. Entre 9hs e 20hs.

    Confira as demais editoras participantes em www.iifluff.wordpress.com

  • Postado por editora em em 10/11/2022 - 11:55

    "A elite política não era contrária ao Exército. Ela, na verdade, elaborou e pôs em prática um vasto projeto de reforma militar. Considerando que as forças militares herdadas do Primeiro Reinado foram desmobilizadas pelos liberais de 1831, é possível afirmar que essa reforma de 1837 dá origem ao Exército brasileiro. Projeto que foi organizado a partir de diretrizes políticas específicas - o Exército brasileiro foi estruturado seguindo uma orientação do Partido Conservador [?], cuidando com zelo de preservar no Brasil uma herança colonizadora: a de uma monarquia assentada na grande propriedade e na escravidão."

    Confira o prefácio para a 2ª edição do livro de Adriana Barreto de Souza 'O Exército na consolidação do Império', escrito pela professora Keila Grinberg.

     

    Não poderia ser mais oportuna a publicação da segunda edição de O Exército na consolidação do Império, da historiadora Adriana Barreto de Souza. Lançado originalmente em 1999, o livro faz parte de uma intensa produção historiográfica que vem criticando e desconstruindo mitos importantes sobre a história das Forças Armadas no Brasil. A despeito dessa renovação, ainda encontram ressonância pública idealizações sobre as origens do Exército e seu papel nas décadas posteriores à independência do país.
    Uma delas é a alusão ao Exército imperial pelo nome de seu patrono, o duque de Caxias (1803-1880), que ainda em vida recebeu a alcunha de o “Pacificador do Brasil”. Guiado por Caxias, o Exército brasileiro desempenhou papel fundamental na desproporcional repressão às revoltas ocorridas ao longo das décadas de 1830 e 1840, como a Balaiada, no Maranhão, e a Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Anos mais tarde, durante a Guerra do Paraguai (1865-1870), Caxias foi designado comandante máximo das Forças do Império. Quase cem anos depois, foi oficialmente nomeado Patrono do Exército Brasileiro. A associação da imagem do Exército à figura de Caxias, elogiando a ideia de “pacificação” e naturalizando a violência das ações militares desde então, é um dos mais poderosos e longevos mitos sobre a suposta vocação do Exército na mediação de conflitos.

    Originalmente dissertação de mestrado defendida no Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob orientação do professor Manoel Salgado Guimarães, e uma das vencedoras do Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa 1997, O Exército na consolidação do Império é obra fundamental justamente porque se contrapõe a essas visões tradicionais sobre a história militar brasileira.

    Adriana Barreto demonstra como a fundação do Exército nacional em 1831 fez parte de um projeto conservador que se tornou hegemônico a partir do chamado Regresso, em 1837, quando os membros do Partido Conservador, representantes dos proprietários escravistas, assumiram o poder. Para além da atuação no combate às revoltas que então ocorriam em várias províncias do país, a própria estrutura interna da corporação reproduzia em sua burocracia os valores hierárquicos próprios da sociedade imperial, reservando a oficialidade aos membros das elites locais e as posições de soldados a pessoas como os pardos libertos, vistas como pouco idôneas e que colocavam riscos à tranquilidade pública. Isso não significa, no entanto, que o processo de formação do Exército brasileiro tenha espelhado a sociedade e o Estado brasileiros. Ao contrário, ele ocorreu de forma tensa, plena de interesses díspares e projetos opostos. Ao estudar o contexto mais amplo da formação do Exército e ao mesmo tempo a historicidade de seus interesses e tensões internas, a autora enfatiza a importância de analisar o Exército a partir de suas dinâmicas internas próprias, apontando os problemas da generalização do termo “militares” e chamando a atenção para a necessidade “de um exame mais preciso da organização interna do próprio Exército”. O resultado desse exame preciso é justamente este livro.
    O Exército na consolidação do Império é uma defesa da História como campo do saber e da validade de seus métodos para a construção do conhecimento científico. Não há nele nenhuma afirmação que não seja baseada na leitura crítica da historiografia e na análise rigorosa das fontes. Como já notado no prefácio à primeira edição por Manoel Salgado Guimarães, não por acaso o orientador deste trabalho, Adriana Barreto interroga os símbolos fundadores da história do Exército e dessacraliza sua mitificação, que evidentemente não resiste ao confronto 
    com a pesquisa documental. Com elegância e firmeza, é como se ela afirmasse ao final: o Exército brasileiro, este que foi fundado em 1831 com a reorganização do poder realizada após a abdicação de d. Pedro I, não é nem nunca foi o “de Caxias”. Ele é mais complexo, mais diverso e, por isso mesmo, mais real do que a idealização que ainda o vê, na figura de seu “patrono”, como a salvação do Estado e da unidade do território brasileiros.

    Lido nos dias de hoje, este livro também é uma defesa da importância da História para fundamentar nosso olhar para o presente. Afinal, por incrível que pareça, ainda hoje o Poder Executivo tenta usar o Exército como milícia própria e braço de apoio. São comuns variações da frase “nas mãos das Forças Armadas, o poder moderador [é] a certeza da garantia da nossa liberdade, da nossa democracia, e o apoio total às decisões do presidente para o bem da sua nação”.2 Ela é baseada em uma clara distorção das funções do Exército tal como estabelecidas pela Constituição em vigor. Ao Exército nunca coube dar “apoio total” a nenhum presidente, muito menos exercer poder moderador entre os demais poderes. Essa perspectiva corrobora a ideia bastante controversa de que, ao longo de sua existência, ao Exército caberia moderar os conflitos sociais, sem intervir na política. Ao procederem dessa maneira, nossos contemporâneos realizam a mesma projeção conservadora e mitológica sobre o passado empreendida pelos estadistas do Império, quando atribuíram ao Exército o papel da garantia da ordem e da unificação do território brasileiro.

    “Que se aproveitem as lições do passado para a segurança do futuro”, afirmou o líder conservador Paulino José Soares de Sousa, o visconde do Uruguai, em 1843. É com essa citação que Adriana Barreto abre a conclusão de seu livro, demonstrando como, já no século XIX, essa leitura do passado era, em si, um projeto hierárquico, centralizador, autoritário. A publicação da segunda edição deste livro, em 2022, é um apelo à urgência do combate às interpretações que falseiam a História e usam o passado para legitimar perspectivas igualmente hierárquicas, centralizadoras e autoritárias do nosso futuro.

     

    O Exército na consolidação do Império: um estudo sobre a política militar conservadora (1831-1850)

    Autora: Adriana Barreto de Souza

    2ª edição

  • Postado por editora em em 07/11/2022 - 16:24

    Este livro apresenta uma história conectada a múltiplas histórias da América Latina, na luta dos povos indígenas em defesa de suas terras, de sua cultura, de seu estilo de vida, de seus valores e princípios éticos. O historiador Alberto del Castillo Troncoso mapeia a trajetória da célebre fotografia "As mulheres de X'oyep", de Pedro Valtierra, que captou o instante em que duas mulheres 'tsotsiles' investem contra um dos militares em X'oyep após o massacre no povoado de Acteal. A obra apresenta as condições da produção da imagem, a busca documental empreendida por Valtierra e seu trabalho de edição. O autor analisa ainda os múltiplos aspectos que constituem o complexo processo de construção de uma imagem poderosa que, transcendendo a si mesma, se tornou um dos símbolos mais representativos da resistência indígena na América Latina.

    Confira o prefácio de Regina Beatriz Guimarães Neto e Antonio Torres Montenegro para esta versão em português, traduzida por Pablo F. de A. Porfirio e publicada por nós.

     

    O historiador Alberto del Castillo Troncoso é bastante conhecido na comunidade acadêmica do Brasil pelos artigos em diversas revistas, pela participação em congressos da Associação Nacional de História (Anpuh) e da Associação Brasileira de História Oral (Abho) e pela parceria com distintos grupos de pesquisa nacionais.
    Porém, foram seus livros direcionados com grande competência para a história de fotógrafos latino-americanos — privilegiando determinados conjuntos de fotografias produzidos sobre certos eventos — associada à metodologia da história oral que engendraram e consolidaram os laços com os historiadores do Brasil.
    A FGV Editora, ao publicar As mulheres de X’oyep, obra que recebeu o Prêmio Nacional de Ensaio sobre Fotografia, no México, concorre para ampliar as relações desse historiador com os leitores brasileiros.

    É importante destacar, além das qualidades analíticas excepcionais que o autor apresenta em seus livros e artigos, sua postura intelectual generosa — pois não se furta a sempre nomear os(as) diversos(as) colegas que têm colaborado com seu trabalho de historiador. No caso específico deste livro, destaca os significativos debates ocorridos em seminários de que participou em universidades do Brasil, além de numerosos colegas no México.
    Alberto del Castillo Troncoso, ao eleger a fotografia de imprensa para análise, articula as imagens visuais ao campo social e político e à representação estética. Alinha-se aos estudiosos que rompem com abordagens tradicionais, consideradas “científicas”, que de praxe defendem os “registros reais” ou as descrições “coladas à realidade”, como muitas vezes ocorre com o fotojornalismo em seu objetivo de informar e “provar”. Mas, como afirma Didi-Huberman (2006:49, grifo nosso), tal condição incorre em grave limitação: “[…] quererá não ver outra coisa além do que vê presentemente”.

    O historiador dessacraliza, na trilha dessa perspectiva, a imagem-objeto e procura o que excede ou transborda no movimento multiplicador de signos e espaços sensíveis. Importa observar que, para Alberto del Castillo, ao problematizar a multiplicidade de signos imagéticos que emanam da experiência visual com a fotografia e o fotojornalismo, em particular, a compreensão de “estar com” a imagem é válida até certo ponto, pois a imagem “viaja” e movimenta-se “além do horizonte”. Não há “devoção positivista ao objeto” (Didi-Huberman, 2006:176); o fotógrafo, como o artista, tratará da “produção da imagem” — esse é o ponto no qual recairá a análise. Como historiador exemplar, sem nenhuma intenção de totalizar o sentido das imagens, Castillo realiza um trabalho de artesão para desvelar e reconstituir os passos da construção da imagem que irá encenar-se no espaço público ao pesquisar as variadas formas de recepção/apropriação/ressignificação. De maneira muito particular, narra as trilhas percorridas e relatadas pelos jornalistas para a produção do registro visual — uma fotografia particular — do surpreendente embate de As mulheres de X’oyep, a fim de conferir ao “objeto visual” a singularidade do evento como acontecimento, como quer o historiador.
    O trabalho de documentar os diversos relatos dos jornalistas que estiveram presentes fotografando a luta das mulheres de X’oyep projeta o registro imagético em uma rede de forças políticas e sociais, em acirrada disputa. Nessa trilha, a imagem produzirá grande clamor público nacional e internacional e, como tal, efeito político de impacto, mobilizador de outras lutas.

    A tarefa do historiador Alberto del Castillo segue o caminho da reflexão rigorosa ao partir para realizar uma análise semântica da fotografia, dedicando-se a uma espécie de “crônica da produção fotográfica”, com vários desdobramentos na linha da interação e do diálogo com o fotógrafo-autor. A análise biográfica de Pedro Valtierra passa a ser um imperativo da pesquisa, em que o nome próprio de Valtierra encontra sua função: o nome desloca-se para o coletivo e adentra o espaço público no universo dialógico do fotojornalismo. Alberto del Castillo ainda nos presenteia, nesse contexto, com as reflexões sobre as inovações da produção da fotografia no México nas últimas décadas do século XX.

    A pesquisa historiográfica, nessa rica moldura, para intelectuais como Castillo é uma experiência teórica e prática a cada passo, sempre uma aprendizagem. Novas incursões se delinearam com base na imagem fotográfica, centro de seu interesse, que configurou a luta presente dos indígenas chiapanecos, com destaque para suas mulheres, e múltiplas mobilizações em espaços diferenciados não apenas no México, mas em outros países da América Latina. Sobretudo, impulsionou o imaginário político das lutas pelos direitos dos indígenas e pela força das mulheres, que compõem imagens icônicas.

    Alberto del Castillo elaborou sofisticadas interconexões críticas entre passado e presente, movimento que produziu fecundas análises sobre memória e testemunho, em que pontua os inícios do movimento zapatista (entre 1994 e 1995), os deslocamentos políticos dessa luta e as diversas recepções da fotografia produzida por Valtierra. Não há nem presenteísmo nem finalismo em sua narrativa historiográfica. O presente não é narrado como sucedendo ao passado, mas nesse passado se encontram inflexões significativas de práticas de poder que se constituem em referenciais para o estudo do presente. Há, nesse sentido, a força da contemporaneidade “que demarca uma singular relação com o próprio tempo” e o “interpela” (Agamben, 2009:64). Inaugura-se, desse modo, outro percurso metodológico e narrativo.
    No âmbito dessa experiência, o autor contribui com o relato sobre a fotografia das mulheres indígenas barrando o avanço dos militares, publicada na primeira página de um jornal. O texto que opera como registro do fato dado a ver em imagem exige conhecer a história do México. Nesse sentido, o historiador não se furta a dizer da aliança de algumas lideranças indígenas com setores do governo que reforçam o neoliberalismo de fins do século passado na América Latina e que devem também ser consideradas no embate paradoxal do exército de mulheres indígenas, documentado nessa foto.

    Segundo Alberto, outro fator que concorreu para a força icônica da imagem fotojornalística de Valtierra em X’oyep é o fato de ela ter sido agraciada com o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha. Ao mesmo tempo, em outro nível de análise, numa perspectiva do tempo da longa duração, haveria de se considerar o fato de algumas pesquisas afirmarem “o reconhecimento histórico e a lealdade das comunidades indígenas à instituição da monarquia ibérica”, forjados ao longo dos três séculos de dominação da Coroa espanhola.

    O autor detalha, para maior compreensão contextual, uma breve história biográfica dos principais trabalhos realizados por Valtierra, como a cobertura guerrilheira sandinista na Nicarágua e na Guatemala. Explica, ainda, em razão do exercício de distintos editores que revolucionaram o fotojornalismo no México, como as agências fotográficas serviram de escolas para Valtierra e sua geração.

    A fotografia premiada, transformada em ícone da resistência indígena liderada pelas mulheres, foi também analisada por diferentes estudiosos que o historiador Castillo comentará e entrevistará. Apresenta-se, nesse caminho, a perspectiva do professor Ariel Arnal,1 do jornalista Rafael Cardona, da escritora Elena Poniatowska, bem como da professora Deborah Dorotinsky Alperstein. Ou seja, o autor se detém em uma cuidadosa reflexão acerca das diversas leituras que a fotografia engendrou. Ele observa:
    Talvez o mais relevante consista em poder situar o problema da constante mobilidade das interpretações e a maneira como distintas leituras dessa imagem seguirão contribuindo para um maior conhecimento das condições de vida das comunidades indígenas e sua luta para defender sua cultura a partir de sua projeção como um ícone fotográfico.

    Em continuidade à pesquisa, o autor desloca o foco para as formas de apropriação de distintos jornais e revistas: a revista Epoca, a revista de divulgação científica Bulletin of the Atomic Scientists, o semanário liberal norte-americano First of the Month. Alberto del Castillo conclui o capítulo “História de um ícone” assinalando que First of the Month, ao publicar a foto As mulheres de X’oyep, também coloca como legenda a pergunta “As fotografias mentem?”, atribuída ao subcomandante Marcos.
    Entretanto, o autor, em seu percurso narrativo, surpreende o leitor com um episódio inusitado. Em 2001, o subcomandante Marcos, em face da eleição do presidente Vicente Fox, que acenava com mudanças para amplos setores da população, deslocou-se da zona de Los Altos de Chiapas para a Cidade do México a fim de pressionar o governo pela reforma indígena que foi negociada nos Acordos de San Andrés. Ele se hospedou por 20 dias nas instalações da Escola Nacional de Antropologia e História (Enah), em Cuicuilco, ao sul da Cidade do México. Nesse período, realizou uma aula para os estudantes da Enah no maior auditório da escola, que esteve superlotado para ouvi-lo. E sua aula, para surpresa geral, teve como inspiração a fotografia de Valtierra, que Marcos abriu numa cartolina e colou num quadro, causando grande impacto e emoção. A fotografia foi a referência para a aula do comandante e “professor” Marcos. Segundo ele, ali estavam representados os dois blocos que se enfrentavam naquele momento na selva chiapaneca, fielmente representados na fotografia de Valtierra. Alberto conclui que “o principal líder do movimento zapatista conferiu, naquela singular ‘aula’ acadêmica da Enah, um reconhecimento explícito a essa fotografia como a referência visual mais notável do zapatismo em torno do conflito indígena”.

    Como é próprio aos historiadores de ofício, que não se deixam capturar pelas fronteiras dos campos do conhecimento, inspirados, talvez, no operar dos etnógrafos e dos antropólogos, Alberto decidiu visitar X’oyep. Tinham se passado quase 15 anos. Que marcas daquela experiência de confronto entre as mulheres indígenas e o Exército, registrada num átimo pelas lentes da câmera de Pedro Valtierra, estariam presentes na memória das pessoas do lugar?

    O leitor é surpreendido no último capítulo do livro com o relato dessa viagem, em que a paisagem vivenciada pelo historiador é conectada aos relatos das entrevistas concedidas a ele pelos jornalistas Valtierra e Balboa, quando documentaram o evento. Presente e passado, percepção e memória produzem em Alberto del Castillo Troncoso possibilidades de novas leituras, novas sensações, outros sentimentos, novas experiências, novos deslocamentos analíticos — a começar pelo inesperado encontro com o indígena Antonio López, que o recebe espontaneamente em sua casa para uma conversa/entrevista. Alberto descobre estar diante de um personagem central não apenas do evento que resultou na fotografia icônica As mulheres de X’oyep, mas do massacre de Acteal — em que foram alvo os indígenas em 22 de dezembro de 1997 —, homem com estreita conexão com o evento fotografado por Valtierra. Ao leitor, deixamos plantada a curiosidade para conhecer mais essa incursão do historiador e autor do livro nas plagas indígenas mexicanas do estado de Chiapas.

    Dessa forma, temos em mãos um livro de uma história conectada a múltiplas histórias da América Latina, na luta dos povos indígenas em defesa de suas terras, de sua cultura, de seu estilo de vida, de seus valores e princípios éticos. Uma obra de um historiador que apresenta análises sociais, políticas, econômicas, culturais e visuais que se atualizam em diversos níveis, produzindo a compreensão de que a história é movimento constante a reconstruir leituras e ressignificações de lutas e resistências.
    Desejamos instigantes leituras deste importante livro, que premiou um historiador incansável em sua trincheira de resistência.
     

     

    As mulheres de X'oyep: fotografia e memória

    Autor: Alberto del Castillo Troncoso

  • Postado por editora em em 07/11/2022 - 16:24

    Este livro apresenta uma história conectada a múltiplas histórias da América Latina, na luta dos povos indígenas em defesa de suas terras, de sua cultura, de seu estilo de vida, de seus valores e princípios éticos. O historiador Alberto del Castillo Troncoso mapeia a trajetória da célebre fotografia "As mulheres de X'oyep", de Pedro Valtierra, que captou o instante em que duas mulheres 'tsotsiles' investem contra um dos militares em X'oyep após o massacre no povoado de Acteal. A obra apresenta as condições da produção da imagem, a busca documental empreendida por Valtierra e seu trabalho de edição. O autor analisa ainda os múltiplos aspectos que constituem o complexo processo de construção de uma imagem poderosa que, transcendendo a si mesma, se tornou um dos símbolos mais representativos da resistência indígena na América Latina.

    Confira o prefácio de Regina Beatriz Guimarães Neto e Antonio Torres Montenegro para esta versão em português, traduzida por Pablo F. de A. Porfirio e publicada por nós.

     

    O historiador Alberto del Castillo Troncoso é bastante conhecido na comunidade acadêmica do Brasil pelos artigos em diversas revistas, pela participação em congressos da Associação Nacional de História (Anpuh) e da Associação Brasileira de História Oral (Abho) e pela parceria com distintos grupos de pesquisa nacionais.
    Porém, foram seus livros direcionados com grande competência para a história de fotógrafos latino-americanos — privilegiando determinados conjuntos de fotografias produzidos sobre certos eventos — associada à metodologia da história oral que engendraram e consolidaram os laços com os historiadores do Brasil.
    A FGV Editora, ao publicar As mulheres de X’oyep, obra que recebeu o Prêmio Nacional de Ensaio sobre Fotografia, no México, concorre para ampliar as relações desse historiador com os leitores brasileiros.

    É importante destacar, além das qualidades analíticas excepcionais que o autor apresenta em seus livros e artigos, sua postura intelectual generosa — pois não se furta a sempre nomear os(as) diversos(as) colegas que têm colaborado com seu trabalho de historiador. No caso específico deste livro, destaca os significativos debates ocorridos em seminários de que participou em universidades do Brasil, além de numerosos colegas no México.
    Alberto del Castillo Troncoso, ao eleger a fotografia de imprensa para análise, articula as imagens visuais ao campo social e político e à representação estética. Alinha-se aos estudiosos que rompem com abordagens tradicionais, consideradas “científicas”, que de praxe defendem os “registros reais” ou as descrições “coladas à realidade”, como muitas vezes ocorre com o fotojornalismo em seu objetivo de informar e “provar”. Mas, como afirma Didi-Huberman (2006:49, grifo nosso), tal condição incorre em grave limitação: “[…] quererá não ver outra coisa além do que vê presentemente”.

    O historiador dessacraliza, na trilha dessa perspectiva, a imagem-objeto e procura o que excede ou transborda no movimento multiplicador de signos e espaços sensíveis. Importa observar que, para Alberto del Castillo, ao problematizar a multiplicidade de signos imagéticos que emanam da experiência visual com a fotografia e o fotojornalismo, em particular, a compreensão de “estar com” a imagem é válida até certo ponto, pois a imagem “viaja” e movimenta-se “além do horizonte”. Não há “devoção positivista ao objeto” (Didi-Huberman, 2006:176); o fotógrafo, como o artista, tratará da “produção da imagem” — esse é o ponto no qual recairá a análise. Como historiador exemplar, sem nenhuma intenção de totalizar o sentido das imagens, Castillo realiza um trabalho de artesão para desvelar e reconstituir os passos da construção da imagem que irá encenar-se no espaço público ao pesquisar as variadas formas de recepção/apropriação/ressignificação. De maneira muito particular, narra as trilhas percorridas e relatadas pelos jornalistas para a produção do registro visual — uma fotografia particular — do surpreendente embate de As mulheres de X’oyep, a fim de conferir ao “objeto visual” a singularidade do evento como acontecimento, como quer o historiador.
    O trabalho de documentar os diversos relatos dos jornalistas que estiveram presentes fotografando a luta das mulheres de X’oyep projeta o registro imagético em uma rede de forças políticas e sociais, em acirrada disputa. Nessa trilha, a imagem produzirá grande clamor público nacional e internacional e, como tal, efeito político de impacto, mobilizador de outras lutas.

    A tarefa do historiador Alberto del Castillo segue o caminho da reflexão rigorosa ao partir para realizar uma análise semântica da fotografia, dedicando-se a uma espécie de “crônica da produção fotográfica”, com vários desdobramentos na linha da interação e do diálogo com o fotógrafo-autor. A análise biográfica de Pedro Valtierra passa a ser um imperativo da pesquisa, em que o nome próprio de Valtierra encontra sua função: o nome desloca-se para o coletivo e adentra o espaço público no universo dialógico do fotojornalismo. Alberto del Castillo ainda nos presenteia, nesse contexto, com as reflexões sobre as inovações da produção da fotografia no México nas últimas décadas do século XX.

    A pesquisa historiográfica, nessa rica moldura, para intelectuais como Castillo é uma experiência teórica e prática a cada passo, sempre uma aprendizagem. Novas incursões se delinearam com base na imagem fotográfica, centro de seu interesse, que configurou a luta presente dos indígenas chiapanecos, com destaque para suas mulheres, e múltiplas mobilizações em espaços diferenciados não apenas no México, mas em outros países da América Latina. Sobretudo, impulsionou o imaginário político das lutas pelos direitos dos indígenas e pela força das mulheres, que compõem imagens icônicas.

    Alberto del Castillo elaborou sofisticadas interconexões críticas entre passado e presente, movimento que produziu fecundas análises sobre memória e testemunho, em que pontua os inícios do movimento zapatista (entre 1994 e 1995), os deslocamentos políticos dessa luta e as diversas recepções da fotografia produzida por Valtierra. Não há nem presenteísmo nem finalismo em sua narrativa historiográfica. O presente não é narrado como sucedendo ao passado, mas nesse passado se encontram inflexões significativas de práticas de poder que se constituem em referenciais para o estudo do presente. Há, nesse sentido, a força da contemporaneidade “que demarca uma singular relação com o próprio tempo” e o “interpela” (Agamben, 2009:64). Inaugura-se, desse modo, outro percurso metodológico e narrativo.
    No âmbito dessa experiência, o autor contribui com o relato sobre a fotografia das mulheres indígenas barrando o avanço dos militares, publicada na primeira página de um jornal. O texto que opera como registro do fato dado a ver em imagem exige conhecer a história do México. Nesse sentido, o historiador não se furta a dizer da aliança de algumas lideranças indígenas com setores do governo que reforçam o neoliberalismo de fins do século passado na América Latina e que devem também ser consideradas no embate paradoxal do exército de mulheres indígenas, documentado nessa foto.

    Segundo Alberto, outro fator que concorreu para a força icônica da imagem fotojornalística de Valtierra em X’oyep é o fato de ela ter sido agraciada com o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha. Ao mesmo tempo, em outro nível de análise, numa perspectiva do tempo da longa duração, haveria de se considerar o fato de algumas pesquisas afirmarem “o reconhecimento histórico e a lealdade das comunidades indígenas à instituição da monarquia ibérica”, forjados ao longo dos três séculos de dominação da Coroa espanhola.

    O autor detalha, para maior compreensão contextual, uma breve história biográfica dos principais trabalhos realizados por Valtierra, como a cobertura guerrilheira sandinista na Nicarágua e na Guatemala. Explica, ainda, em razão do exercício de distintos editores que revolucionaram o fotojornalismo no México, como as agências fotográficas serviram de escolas para Valtierra e sua geração.

    A fotografia premiada, transformada em ícone da resistência indígena liderada pelas mulheres, foi também analisada por diferentes estudiosos que o historiador Castillo comentará e entrevistará. Apresenta-se, nesse caminho, a perspectiva do professor Ariel Arnal,1 do jornalista Rafael Cardona, da escritora Elena Poniatowska, bem como da professora Deborah Dorotinsky Alperstein. Ou seja, o autor se detém em uma cuidadosa reflexão acerca das diversas leituras que a fotografia engendrou. Ele observa:
    Talvez o mais relevante consista em poder situar o problema da constante mobilidade das interpretações e a maneira como distintas leituras dessa imagem seguirão contribuindo para um maior conhecimento das condições de vida das comunidades indígenas e sua luta para defender sua cultura a partir de sua projeção como um ícone fotográfico.

    Em continuidade à pesquisa, o autor desloca o foco para as formas de apropriação de distintos jornais e revistas: a revista Epoca, a revista de divulgação científica Bulletin of the Atomic Scientists, o semanário liberal norte-americano First of the Month. Alberto del Castillo conclui o capítulo “História de um ícone” assinalando que First of the Month, ao publicar a foto As mulheres de X’oyep, também coloca como legenda a pergunta “As fotografias mentem?”, atribuída ao subcomandante Marcos.
    Entretanto, o autor, em seu percurso narrativo, surpreende o leitor com um episódio inusitado. Em 2001, o subcomandante Marcos, em face da eleição do presidente Vicente Fox, que acenava com mudanças para amplos setores da população, deslocou-se da zona de Los Altos de Chiapas para a Cidade do México a fim de pressionar o governo pela reforma indígena que foi negociada nos Acordos de San Andrés. Ele se hospedou por 20 dias nas instalações da Escola Nacional de Antropologia e História (Enah), em Cuicuilco, ao sul da Cidade do México. Nesse período, realizou uma aula para os estudantes da Enah no maior auditório da escola, que esteve superlotado para ouvi-lo. E sua aula, para surpresa geral, teve como inspiração a fotografia de Valtierra, que Marcos abriu numa cartolina e colou num quadro, causando grande impacto e emoção. A fotografia foi a referência para a aula do comandante e “professor” Marcos. Segundo ele, ali estavam representados os dois blocos que se enfrentavam naquele momento na selva chiapaneca, fielmente representados na fotografia de Valtierra. Alberto conclui que “o principal líder do movimento zapatista conferiu, naquela singular ‘aula’ acadêmica da Enah, um reconhecimento explícito a essa fotografia como a referência visual mais notável do zapatismo em torno do conflito indígena”.

    Como é próprio aos historiadores de ofício, que não se deixam capturar pelas fronteiras dos campos do conhecimento, inspirados, talvez, no operar dos etnógrafos e dos antropólogos, Alberto decidiu visitar X’oyep. Tinham se passado quase 15 anos. Que marcas daquela experiência de confronto entre as mulheres indígenas e o Exército, registrada num átimo pelas lentes da câmera de Pedro Valtierra, estariam presentes na memória das pessoas do lugar?

    O leitor é surpreendido no último capítulo do livro com o relato dessa viagem, em que a paisagem vivenciada pelo historiador é conectada aos relatos das entrevistas concedidas a ele pelos jornalistas Valtierra e Balboa, quando documentaram o evento. Presente e passado, percepção e memória produzem em Alberto del Castillo Troncoso possibilidades de novas leituras, novas sensações, outros sentimentos, novas experiências, novos deslocamentos analíticos — a começar pelo inesperado encontro com o indígena Antonio López, que o recebe espontaneamente em sua casa para uma conversa/entrevista. Alberto descobre estar diante de um personagem central não apenas do evento que resultou na fotografia icônica As mulheres de X’oyep, mas do massacre de Acteal — em que foram alvo os indígenas em 22 de dezembro de 1997 —, homem com estreita conexão com o evento fotografado por Valtierra. Ao leitor, deixamos plantada a curiosidade para conhecer mais essa incursão do historiador e autor do livro nas plagas indígenas mexicanas do estado de Chiapas.

    Dessa forma, temos em mãos um livro de uma história conectada a múltiplas histórias da América Latina, na luta dos povos indígenas em defesa de suas terras, de sua cultura, de seu estilo de vida, de seus valores e princípios éticos. Uma obra de um historiador que apresenta análises sociais, políticas, econômicas, culturais e visuais que se atualizam em diversos níveis, produzindo a compreensão de que a história é movimento constante a reconstruir leituras e ressignificações de lutas e resistências.
    Desejamos instigantes leituras deste importante livro, que premiou um historiador incansável em sua trincheira de resistência.
     

     

    As mulheres de X'oyep: fotografia e memória

    Autor: Alberto del Castillo Troncoso

  • Postado por editora em em 07/11/2022 - 12:55

    Este livro foi a saída encontrada por seu autor/narrador, para escapar produtivamente da solidão impiedosa durante a pandemia de Covid-19. Isto, porque ler um bom livro nos leva a muitos e muitos lugares físicos, sociais, culturais, existenciais. O autor declara que ler e/ou reler os clássicos foi seu projeto e prática, por mais de cinquenta anos. Fizesse o que fizesse, estivesse onde estivesse, a leitura de autores clássicos sempre foi o seu foco. E durante o recolhimento da pandemia foi também um projeto de saúde mental. Misto de ficção e documentário, o livro é um belo achado de criatividade, inteligência narrativa e consistência de informações históricas, literárias, filosóficas. A edição conta ainda com o prefácio de autoria de Carlos José Fontes Diegues, o respeitadíssimo intelectual Cacá Diegues.

    Confira o prefácio:

    Para se ler um texto como este, como convém, não se deve correr atrás das frases e das palavras como animais que acabam de escapar do cercadinho em que vivem. E não convém correr, não adianta correr. As citações se impõem independente das relações delas com o que as antecedeu.
    Curioso que, na jovem literatura brasileira, há uma evidente tendência de fabricar mistérios no que é simples, mas este texto fabrica uma emoção literária bem oposta – o que é simples reage criando complexidades nos vocábulos que se articulam em frases aparentemente comuns.
    O que serve de alimento para suas citações, interpretações e aparentes conflitos não é, muitas vezes, o que deseja o autor original, tentando explicar o que não consegue entender no mundo diante dele. Uma espécie de negação daquilo que se foi buscar nos textos, o aproveitamento de palavras/ideias que não são as do autor para ilustrar sua angústia, iluminar pelo oposto o que se sente de verdade diante do mundo e das dificuldades que ele constrói para nós, quando menos esperamos. E nós não esperamos nada, nunca; embora isso dependa do momento em que vivemos.
    A literatura de Mauricio Murad é a fonte em que ele vai buscar suas ideias para hoje e para sempre. Um aproveitamento que se deseja contaminado pelo que ele pensou, até aqueles autores originais surgirem em sua vida.
    Como nem sempre é possível explicar por que aqueles desenhos de vida estão lhe interessando, o rompimento com o que é dito pelos outros pensadores se transforma numa manipulação muito bem-sucedida, enriquecendo com a soma disso tudo, o que para o autor devia ser só dele. O homem é sempre o resultado daquilo que ele pensa, somado ao que não quer pensar.
    Não sei se o que escrevi acima serve de algum modo ao leitor. Embora leia muito e de tudo um pouco, não tenho o direito de me meter em certos campos da ficção literária, não fui convenientemente preparado para isso.
    No fundo de seu coração, Mauricio Murad acha que podia transformar tudo isso numa espécie de filme. Mas o texto, como está, não me parece cinematográfico. É impossível filmar só ideias. Mas tudo no mundo pode virar cinema, inclusive esse passeio pela filosofia dos tempos modernos e os sonhos (ou pesadelos) que ela provoca. Para fazer isso, basta esquecer o que está feito em benefício dos sonhos que estão por trás das frases escritas. Aí elas têm que virar imagem e o resto do filme, frases afogadas em ideias que as construíram. Isso é que é arte. Ou a arte que interessa fazer.
    Para simplificar tudo isso, sugiro que quem lê comece essa tentativa de adaptação de uma arte para outra, pela última citação shakespeariana, uma bela e esperta síntese do que se encontra no clímax do texto. Shakespeare é sempre uma boa síntese de tudo, com um sorriso no canto da boca.

     

    Viagem na primeira classe: (re)encontrando autores imortais, suas obras e personagens

    Autor: Mauricio Murad

    Lançamento da obra dia 16 de dezembro, às 16h00, na Livraria FGV.

  • Postado por editora em em 30/09/2022 - 15:07

    Os estudos que compõem este livro pretendem pensar o arquivo e a história do cinema por meio dos outros filmes, explorando caminhos que, partindo da heterogeneidade e irredutibilidade das imagens em movimento, nos podem levar em várias direções. O arquivo liga-nos aos passados que vingaram
    no presente, mas também aos que o falharam e que agora reemergem, inspirando novas obras e pesquisas.

    Para marcar o lançamento desta obra, vamos promover um bate-papo com a presença de Thais Blank, professora da FGV CPDOC, Patricia Machado, professora da PUC Rio, Leandro Pimentel, professor da UERJ e Celso Castro, professor da FGV CPDOC, que possuem textos nesta publicação, na Blooks Livraria, dia 27/10, às 19h.

    Confira a introdução da obra:

    Os arquivos de imagens em movimento vistos à luz dos outros filmes: perspectivas de análise e desafios

     

    Esse livro resulta do trabalho desenvolvido ao longos dos últimos oito anos no âmbito do Grupo de Trabalho (GT) Outros Filmes, da Associação dos Investigadores da Imagem em Movimento (AIM). O GT foi criado em 2013 e encontrou nos Encontros da AIM um espaço regular de apresentação e discussão das pesquisas (muitas vezes preliminares ou ainda em curso) dos seus membros. Inicialmente, moveu-nos uma inquietação: como pesquisadores interessados pelas imagens não canônicas do cinema, percebíamos que existiam poucos espaços institucionais onde podíamos compartilhar nosso trabalho e percorrer juntos novos caminhos de pesquisa. Em um primeiro momento o uso do termo outros filmes causou um certo estranhamento. Que filmes seriam estes? De que seria composta essa alteridade do cinema? O que uniria essas imagens nesse guarda-chuva da alteridade? Alteridade constituída em relação a quem? Para haver o outro é preciso haver também um ponto de vista hegemônico; que hegemonia seria essa?

    Ao longo desses anos, nos encontros do GT, mas também nos trabalhos que fomos desenvolvendo, paralelamente à AIM, em várias geografias (Portugal, Brasil, França, Espanha), esses questionamentos foram tomando forma. Passado esse tempo, podemos afirmar que o campo dos outros filmes constitui-se como um campo de pesquisa interdisciplinar voltado para objetos fílmicos que possuem em comum a marca de terem sido excluídos das grandes narrativas e da historiografia clássica do cinema. Filmes institucionais, filmes turísticos e de atualidades, imagens amadoras e de câmara de vigilância, filmes científicos e com fins didáticos são exemplos de imagens que ficaram à margem dos estudos cinematográficos tradicionalmente centrados no filme de autor, na ficção e nos formatos de longa-metragem. Podíamos falar de muitos outros (como os filmes de animação ou publicitários), mas os trabalhos que nos chegaram não cobriram o amplo leque de possibilidades que se abre a esta profícua via de análise. Desde cedo, foram três os objetos de estudo que se destacaram nos nossos fóruns: os filmes (de) amadores (e, em especial, os filmes de família); as atualidades filmadas (também conhecidas por “cinejornais”); e os filmes de tipologia variada (documentário ou ficção) que recorrem ao arquivo para se apropriarem de imagens aí existentes, conferindo-lhes novos significados e oferecendo-lhes uma nova vida. Como veremos, esta preferência ou incidência investigativa encontra-se amplamente refletida na organização e nos conteúdos deste livro.

    Ao longo dos últimos anos tornou-se igualmente evidente que os outros filmes, como campo de investigação, possuíam sua própria história. Uma história, como não podia deixar de ser, muito anterior a 2013. As atualidades filmadas, bem como as imagens amadoras, remontam aos inícios do cinema, perdendo-se nesse “caldo” cultural híbrido e intermedial que antecedeu o “segundo nascimento” do cinema como uma instituição — para adotar a tese de André Gaudreault e Philippe Marion. A formação dos primeiros arquivos de imagens em movimento, em meados da década de 1930, bem como da Fédération Internationale des Archives du Film (FIAF), pouco tempo depois, tornaram possível a salvaguarda e conservação de imagens em risco de desaparecimento. O objetivo principal dessas instituições era a troca de cópias, com vista à disseminação de uma história universal do cinema como arte, construída a partir de uma seleção mais ou menos consensual de obras e autores e, consequentemente, da formação de um cânone (Dupin, 2013:44). Mas o sentido de missão patrimonial — muitas vezes aliado ao acaso — acabou por resultar também na recolha e coleção de um outro tipo de imagens — as de não ficção — que cedo se constituíram como uma parte numericamente significativa dos acervos.

    A história da formação e consagração dos estudos de cinema requereria uma seção à parte, que não nos compete aqui fazer, mas é importante sublinhar que essa história se desenvolveu, em grande parte, longe dos arquivos — já para não falar das imagens menores aí guardadas. Os cinejornais representam, de certo modo, um caso à parte. Frequentemente ligados a contextos de guerra e revolução, os cinejornais atraíram desde cedo a atenção de historiadores, cientistas políticos e estudiosos da comunicação, quer pela historicidade que lhes é inerente como testemunhos de uma época, quer pelos usos políticos e ideológicos a que se encontram igualmente associados. História e propaganda (e a relação de ambas com o cinema) têm sido, pois, os principais vetores de análise dos cinejornais. Mais recentemente, assistimos à multiplicação de iniciativas, dispersas por diferentes países e centros de investigação, que buscam chamar atenção para a necessidade da crítica e da história do cinema incorporarem em suas narrativas as imagens de não ficção, não canônicas ou marginais. Nos anos 1990, surge, no contexto anglo-saxão, a discussão em torno dos filmes órfãos, cujos autores são desconhecidos e sobre os quais não são investidos poderes e saberes que garantam sua durabilidade nos arquivos ou na história do cinema. No final da mesma década, são publicados os primeiros trabalhos do francês Roger Odin (1995) e da americana Patricia Zimmermann (1995) sobre o cinema amador. Na França, no mesmo período, foram criadas as primeiras Cinematecas Regionais, interessadas em salvaguardar a cultura local, que acabaram por se configurar como centros de preservação do cinema marginal ou não profissional. Dois outros momentos merecem uma menção, ainda que breve: em 1994, teve lugar, no Nederlands Filmmuseum de Amsterdã, um seminário sobre os primeiros filmes de não ficção da história do cinema; e em 1997, foram iniciados os trabalhos na National Film Preservation Foundation, que assumiu como missão “salvar os filmes americanos que provavelmente não sobreviveriam sem investimento público”.

    Os interesses acadêmico e arquivístico pelas outras imagens têm vindo a alimentar-se mutuamente. A academia passou a produzir teorias e métodos de abordagem para esse cinema que se encontrava, até então, à margem, e os arquivos audiovisuais começaram explicitamente a incorporar em suas agendas de trabalho a missão de salvaguardar e patrimonializar imagens entendidas por muitos como descartáveis. Assim, desenvolveram-se novos aportes teóricos e metodológicos concomitantemente a novas formas de pensar o arquivo, à criação de novos arquivos e — não menos importante — ao acesso de cada vez mais pesquisadores aos arquivos. As pesquisas desenvolvidas no âmbito do GT Outros Filmes são um produto de todas estas movimentações que afetaram, com diferentes graus de intensidade, os mundos acadêmicos e arquivísticos, no que às imagens em movimento dizem respeito, de Portugal e do Brasil. Nos diversos encontros em que participamos, foi evidente a necessidade de realizar uma reflexão profunda, não só acerca das imagens de arquivo que nos interessavam, mas também do próprio arquivo, entendido como um espaço para fora do qual as imagens se lançam em percursos migratórios. A trajetória dos outros filmes está intimamente ligada à história dos arquivos audiovisuais, pois é, em geral, no seio deles — arquivos públicos e privados — que essas imagens sobrevivem. É também no encontro com o arquivo que as imagens ganham novos sentidos, seja pela mão dos pesquisadores seja pela mão dos cineastas, como veremos.

    As pesquisas que integram o GT Outros Filmes, e que compõem este livro, interrogam as imagens a partir não apenas de um ponto de vista estético, mas também da sua materialidade, encarando-as como imagens sobreviventes e migrantes que resistem, apesar de tudo, às ações humanas e do tempo. Como indica Stuart Hall (2016), a “política das imagens” é uma política da representação, num campo onde os sentidos (pessoais, sociais, políticos) estão em permanente disputa. Mas ela é, também, uma política de seleção de visibilidade e permanência — nos arquivos como na história do cinema. Os estudos que compõem este livro propõem revisitar o não canônico, pensar novos objetos e, a partir deles, pensar novas formas do fazer histórico e cinematográfico. Ao revelar as imagens na sua mais crua materialidade, o arquivo acaba também por revelar os limites elásticos e porosos do cinema — esse fenômeno social tão difuso quanto criativo que nos traz ecos de tempos e vidas que já passaram, mas que continuam a assombrar-nos como fantasmas que conosco coabitam.

    O livro divide-se em três partes. A primeira parte, intitulada Outros arquivos, outros filmes, outras histórias, inclui três capítulos que abordam dois tipos de outros filmes — filmes de atualidades, nos dois primeiros casos, e filmes amadores, no terceiro caso — para com eles (re)visitar aspectos da história do Estado Novo português e de dois impérios coloniais, o português e o francês. A abrir a seção, Sofia Sampaio propõe uma leitura empírica das atualidades produzidas para o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN/SNI), nos primeiros anos do Estado Novo. Trata-se da série Jornal Português: Revista Mensal de Actualidades, recentemente editada em DVD pela Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, onde as imagens se encontram depositadas e preservadas. A autora socorre-se da sociologia da cultura e da teoria da comunicação para desenhar um retrato mais fino das relações que se estabeleceram, nesse período, entre o campo cinematográfico e o campo político. Um dos objetivos do texto é devolver ao cinejornal seu estatuto de objeto cinematográfico, reatando-o com a história do cinema (nomeadamente, com o “cinema de atrações”) e resgatando-o a uma tradição de análise cujo enfoque tem sido predominantemente propagandístico. No segundo capítulo, o historiador Marcos Cardão analisa as Atualidades de Angola, produzidas, entre 1957 e 1974, pela seção de publicidade da Direção dos Serviços de Fazenda e Contabilidade de Angola e, a partir de 1959, pelo Centro de Informação e Turismo de Angola (Cita). Num texto que lança algumas notas sobre os desafios do trabalho de investigação em arquivos audiovisuais, o autor seleciona um conjunto de temáticas — o turismo, os lazeres e entretenimentos, os rituais de Estado, certos núcleos de “modernidade” (indústria, planeamento urbanístico, arquitetura, meios de transporte, consumo) — para discutir a “viragem luso-tropical” que marcou o colonialismo tardio português. Não obstante seu papel como caixa de ressonância do poder colonial, Cardão conclui que as Atualidades de Angola “pouco fizeram para validar os postulados do excecionalismo português”.

    No capítulo seguinte, Beatriz Rodovalho aborda três coleções do fundo amador do Forum des Images, para analisar filmes do cirurgião-dentista e cineclubista Charles-Henri Leclerc-d’Orléac; do funcionário público, também cineclubista, Michel Guyot; e de um casal de professores, Alain e Janine Cachia (ele franco-tunisino, ela bretã). Do primeiro, a autora destaca “um filme de viagem peculiar”, que relata a viagem do cidadão francês à Costa do Marfim, em 1958, por ocasião da geminação da sua cidade com uma outra costa-marfinense. A_Proposito_Outros_Filmes.indd 11 04/08/2022 14:41:53
    Rodovalho vê nestas imagens exemplos de um “olhar etnocêntrico”. Já nos filmes de família de Guyot, que mostram as viagens do cineasta amador à Martinica, entre 1969 e 1998, em visita à família da sua esposa, a autora reconhece a capacidade de “ultrapassar fronteiras históricas e transitar pelo espaço simbólico da alteridade”. Por fim, numa análise de maior fôlego, que abarca vários filmes de viagem que a família Cachia realizou entre a Tunísia, a França e o Madagascar, durante as décadas de 1960 e 1970, e que se beneficiou do testemunho (recolhido por e-mail) do cineasta amador, a autora deslinda várias dimensões do filme doméstico — a dimensão mnêmica de “álbum de família”; a dimensão epistolar, de “filme-souvenir”; a dimensão relacional, ou mesmo territorial, em que a câmara amadora se torna um instrumento de construção de “territórios geoafetivos”.
    Ainda que partindo de áreas científicas distintas, quer Cardão quer Rodovalho interrogam o papel das imagens de arquivo (ou das “fontes audiovisuais”) na produção do conhecimento e da historiografia, vendo nelas um potencial complemento ou contraponto aos “objetos impressos” (no caso de Cardão) e às imagens não amadoras (no caso de Rodovalho). Nos três capítulos, os autores confrontam ausências conspícuas e presenças previsíveis, que carecem sempre da interpretação de quem as vê: é o caso das imagens do público, no Jornal Português; das representações da população negra, nas Atualidades de Angola; e das imagens amadoras que sobrepõem o olhar do visitante francês ao “outro”, em território africano (pós)colonial. Apesar das lacunas e aporias que rodeiam este tipo de pesquisa, os três autores desta seção vislumbram no arquivo de imagens em movimento novas possibilidades para a escrita da história — ou mesmo a possibilidade de uma “contra-história” (segundo Rodovalho).

    É na segunda parte, A circulação de imagens e os usos do arquivo, que reunimos quatro textos sobre um dos principais interesses de pesquisa do nosso GT: a migração de imagens para fora do arquivo e os diferentes sentidos que lhes vão sendo atribuídos ao longo das suas trajetórias no tempo e no espaço. Patrícia Machado começa por abordar a produção e circulação clandestina de imagens militantes produzidas no Brasil de 1968, em plena ditadura militar (1964-85).
    A autora concentra sua análise nas imagens amadoras de dois eventos ocorridos nesse ano, no Rio de Janeiro — as cerimônias fúnebres do estudante Edson Luís e a Passeata dos Cem Mil —, filmadas pelos jovens cinéfilos Eduardo Escorel e José Carlos Avellar. Partindo de filmes que usaram esse material bruto — nomeadamente, noticieros do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos (Icaic) e documentários do francês Chris Marker, realizados entre 1969 e 1977 — e cruzando diferentes documentos produzidos em sua órbita, aos quais junta entrevistas recentes, Machado recupera a trajetória de imagens que, por décadas, foram dadas como desaparecidas, numa pesquisa que a leva a percorrer os arquivos das cinematecas em São Paulo e Rio de Janeiro, os acervos televisivos da TV Tupi, e o arquivo da produtora franco-belga Slon/Iskra. A autora acaba por identificar “uma rede de circulação de imagens clandestinas” entre o Brasil, Cuba e França, que promete estimular mais pesquisas do gênero.

    No capítulo seguinte, Maíra Bosi lança mão de uma estratégia semelhante para recuperar o sentido e a trajetória dos filmes de família produzidos em Super-8, entre as décadas de 1960 e 1980, na cidade de Fortaleza, e usados no filme de montagem de Danilo Carvalho, Supermemórias (2010). Por meio da análise da obra e do material bruto, bem como da realização de entrevistas ao realizador, aos cineastas amadores e seus familiares, Bosi propõe pensar a representação de Fortaleza nos filmes originais e a que resulta do filme de Carvalho, focando-se nas tensões latentes nas imagens entre o público e o privado. A autora destaca características que associamos a este tipo de filmes e formato — como o “valor de autenticidade”, em resultado de uma certa “precariedade técnica”, ou o “desejo oculto de sair do âmbito privado” — para analisar o potencial crítico do gesto de retomada que (por meio da montagem e da trilha sonora) confronta o espectador com as mudanças abruptas que acometeram a cidade, em grande parte provocadas por uma especulação imobiliária desenfreada. A partir de várias memórias privadas, o filme oferece, assim, uma memória pública a uma cidade que aparenta não a ter, constituindo-se dessa forma como um “lugar de memória”. O ponto alto do capítulo é, sem dúvida, a análise das imagens de demolição da casa de família da cineasta amadora Bárbara Mendes, cujo depoimento revela elementos que teriam permanecido inacessíveis se a autora se tivesse limitado a uma análise das imagens.
    O capítulo seguinte, de Adriana Martins, debruça-se igualmente sobre os processos criativos de ressignificação de imagens públicas e privadas do passado na criação de memórias subjetivas, familiares e coletivas. O objeto de análise é o filme ensaio autobiográfico de Catarina Mourão, A toca do lobo (2015), que procura reconstituir a história do seu avô, o escritor Tomás de Figueiredo (1902-70), a partir de imagens de arquivo (filmes domésticos e álbuns de fotografia) e outros documentos e objetos. À (meta)reflexão da realizadora sobre cinema, A_Proposito_Outros_Filmes.indd 13 04/08/2022  arquivo, história e memória — elaborada no âmbito quer do filme, quer da tese de doutoramento que o acompanha — a autora acrescenta uma reflexão sobre as políticas da memória e esquecimento do Estado Novo português, onde a apropriação de arquivos assumidamente “lacunares” e a construção de “cartografias da memória” mediante uma prática arquivística e cinematográfica criativa ocupam hoje um lugar central.

    Por fim, no último capítulo desta seção, Leandro Pimentel analisa o processo de migração das imagens no contexto televisivo, a partir do programa A revolução não será televisionada, de oito episódios, exibido pela TV USP em agosto de 2002. O autor demonstra como o coletivo ARNST se apropria de imagens produzidas para outros fins para construir, com a linguagem televisiva, uma narrativa contra-hegemônica. Inspirando-se no trabalho de Cildo Meirelles, Inserções em circuitos ideológicos (1970), Pimentel discute o potencial subversivo de várias estratégias de “interrupção” de práticas mediáticas tradicionais (ex.: a previsibilidade das emissões em direto, a edição em continuidade, o respeito pela quarta parede), que deslocam as imagens para fora dos seus contextos originais (ou convencionais) de produção, a fim de provocar a confusão temporária do espectador e estimular seu sentido crítico.
    Como a seção mostra, o estudo da circulação de imagens e dos usos do arquivo é indissociável das questões da memória. Machado sublinha a “precariedade da memória audiovisual brasileira” e a necessidade de preservar as imagens raras que conseguiram chegar até nós por meio de redes clandestinas de circulação de imagens (nas quais as cinematecas e os festivais de cinema desempenharam um papel fundamental). Ainda que de maneira diferente, Bosi e Martins realçam o papel do cinema amador e dos filmes de apropriação ou “retomada” como instrumentos de preservação e construção de memórias privadas “perdidas” (Martins) ou até “ocultas” (Bosi). Para estas três autoras, dos arquivos e da preservação de imagens depende a construção de uma memória coletiva crítica — seja da violência de Estado da ditadura militar, hoje negada por vastos setores da sociedade brasileira (Machado), seja de um capitalismo selvagem de longa duração com efeitos devastadores para uma cidade e seus habitantes (Bosi), seja ainda das instituições repressivas do Estado Novo, que marcaram — e, até certo ponto, ainda marcam — a vivência pública e privada de inúmeros portugueses (Martins). Já Pimentel encontra uma relação mais ativa e politicamente engajada com o arquivo nas intervenções “artivistas”, que recorrem à “pilhagem” de imagens dos média hegemônicos (como a TV) para expor as ideologias naturalizadas, bem como as práticas visuais e sociais “excludentes e alienantes” (nas palavras citadas de Ana Maria Maia), em que eles assentam. Em alguns destes textos, as escolhas metodológicas revelaram-se determinantes para a pesquisa, destacando-se as entrevistas e (no caso de Bosi) a realização de visionamentos dos filmes com as famílias como estratégias para fazer falar o arquivo.

    A terceira e última parte do livro reúne três textos que analisam as imagens e os arquivos audiovisuais como instrumentos científicos e pedagógicos, trazendo para a discussão alguns dos desafios inerentes a essas abordagens. No primeiro desses textos, Thais Blank reflete sobre sua experiência como coordenadora de oficinas de produção audiovisual que têm como principal objetivo a utilização de material de arquivo na criação de novos filmes. O ponto de partida dessa produção é o acervo de entrevistas de história oral e documentos textuais e iconográficos (imagens fixas e em movimento) do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (FGV CPDOC), especializado na guarda de arquivos pessoais. O capitulo se debruça sobre três documentários que resultaram das oficinas — Almerinda: a luta continua (2015), de Cibele Tenório; A bacharel e o presidente (2015), de Nay Araújo; e As constituintes de 88 (2018), de Gregory Baltz — para pensar os modos de ressignificação das imagens (e do arquivo onde estão depositadas) a partir dos processos de realização destes filmes em contexto de sala de aula. Todos eles “abordam, por diferentes perspetivas, as trajetórias, conquistas e lutas de mulheres que estiveram no centro do poder”. Inspirada nas propostas de Jacques Rancière do cinema como prática emancipatória e nos projetos da Rede Latino-Americana de Cinema e Educação (RedeKino), criada em 2009, Blank defende a ideia de que o encontro entre o arquivo e os diferentes olhares dos participantes das oficinas permite a produção de um local de criação de mundos, onde reside a pedagogia da imagem.
    A busca de um sentido pedagógico para as imagens é um desiderato antigo, como revela o capítulo seguinte, onde Thaís Lara mergulha na trajetória da escritora e professora Ilka Brunhilde Laurito (1925-2012), idealizadora da Cinemateca Infantil e figura central na criação e desenvolvimento do Departamento Infantil da Cinemateca Brasileira. Para a autora, Ilka Laurito projetou o Departamento “para pensar não somente na produção e exibição dos filmes, mas em uma pedagogia para as imagens”, o que faz dela uma pioneira no estudo dos atravessamentos entre cinema, arquivo e educação. Num estudo que cruza documentos de arquivo e entrevistas, a autora traz-nos “uma história não contada” sobre uma vertente do cinema pouco estudada. As principais questões identificadas há mais de 50 anos — a formação de técnicos especializados (nomeadamente, na área da programação); a questão do valor (i.e., do que constitui um “bom” ou “mau” filme); a formação de um acervo adequado; o equilíbrio entre perspetivas nacionais e internacionais — continuam a ser essenciais para pensar o papel das cinematecas nos dias de hoje, como agentes-chave na formação de públicos de cinema que se querem ativos na sua cidadania.

    O livro encerra com um importante capítulo sobre o uso do audiovisual nas ciências sociais. Tendo por base um projeto de pesquisa sobre a memória das ciências sociais no Brasil, Celso Castro e Arbel Griner refletem sobre os desafios e as mudanças que se operaram com a adoção dos registros audiovisuais para a produção de fontes históricas, no âmbito do programa de História Oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (FGV CPDOC). Os autores traçam o histórico desse processo, problematizando seus principais aspectos, entre eles: a resistência a métodos de registro alternativos à gravação em áudio; a falta de familiaridade da equipe com a produção audiovisual; as questões éticas colocadas pela suposta interferência da câmara e pela entrada da dimensão imagética no registro. O projeto veio ampliar o escopo e as possibilidades de um acervo histórico fundado em 1973, que é hoje uma referência internacional, revelando a importância da criação (e preservação) de arquivos que têm “como estrutura central a entrevista”. O capítulo termina com um balanço dos desafios experimentados e aponta para questões futuras associadas à virada digital e ao que ela pode significar no tratamento e na acessibilidade de um acervo que pretende ser “de uso coletivo”.

    Antes de encerrar essa breve apresentação, não podemos deixar de notar os desafios que também nós enfrentamos para produzir este livro. Passaram-se mais de três anos entre sua concepção (quando pensamos, pela primeira vez, em marcar os cinco anos do GT Outros Filmes com uma antologia de textos) e sua publicação. A seleção dos textos foi feita depois de analisadas as propostas submetidas, por convite, pelos membros mais assíduos do GT ou que nele haviam apresentado trabalhos que nos pareciam interessantes para este projeto. Não podemos deixar de agradecer aos oito autores que generosamente nos confiaram seus textos, que gentilmente acederam a reescrevê-los à luz dos comentários dos revisores, que se esforçaram por respeitar nossos prazos e que, muito pacientemente, aguardaram o processo de submissão do manuscrito e responderam às solicitações dos editores, durante a fase de produção. Um sincero e enorme agradecimento é também devido aos membros da comissão científica que leram os textos com atenção e redigiram pareceres com sugestões perspicazes e pertinentes. A comissão científica foi formada por: Carolina Amaral de Aguiar, Universidade Estadual de Londrina (UEL), Brasil; Teresa Castro, Université Sorbonne Nouvelle — Paris 3, França; Paulo Cunha, Universidade da Beira Interior, Portugal; Tiago Baptista, Instituto de História Contemporânea (IHC), FCSH-Nova, Portugal; Reinaldo Cardenuto, Universidade Federal Fluminense, Brasil; Lila Foster, Universidade de Brasília, Brasil; Anita Leandro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil; Eduardo Morettin, Universidade de São Paulo, Brasil; Lúcia Monteiro, Universidade Federal Fluminense, Brasil; Manuela Penafria, Universidade da Beira Interior, Portugal; José Quental, Université Paris 8/Institut d’Histoire du temps Présent (IHTP/CNRS)/Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil; Susana Sousa Dias, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, Portugal; Robert Stock, Universidade de Konstanz, Alemanha e Rafael de Luna Freire, Universidade Federal Fluminense, Brasil. Sem o contributo de uns e de outros este livro não teria sido possível. O resultado aí está, para ser lido e discutido.

    É nosso intuito, com este livro, contribuir para o avanço e robustecimento do estudo dos outros filmes, dos arquivos de imagens em movimento e das imagens em movimento, em geral, em ambos os lados do Atlântico. Não é demais sublinhar a componente transatlântica que tem acompanhado, desde seu início, o GT, tornando-o um espaço aberto e dinâmico, feito de pontes e partilhas que nos têm enriquecido a todos. Em jeito de conclusão, diríamos que pensar o arquivo por meio dos outros filmes é pensar o cinema com e na história, explorando uma série de caminhos que, partindo da absoluta heterogeneidade e irredutibilidade das imagens em movimento, nos podem levar em várias direções. O arquivo liga-nos aos passados que ajudaram a construir nosso presente — ou que o falharam e foram ficando para trás, esquecidos. Mas também nos liga aos potenciais futuros que, expectantes, aguardam os resultados dos nossos pequenos atos de pesquisa e imaginação.
     

     

    Os arquivos de imagens em movimento vistos à luz dos outros filmes: perspectivas de análise e desafios

    Organizadoras: Thais Blank, Sofia Sampaio

     

  • Postado por editora em em 23/09/2022 - 11:14

    Estamos de volta às feiras de livros presenciais.

    Entre os dias 7 e 9 de outubro, das 10 às 19h, venha nos visitar na Primavera dos Livros do Rio, nos jardins do Museu da República, Catete - Rio.

    Estamos no estande número 6 com diversos livros dos mais variados temas, com mais 57 Editoras.

    O evento cultural incluído este ano no Calendário Oficial da Cidade,  será a maior edição de todos os tempos, com programação cultural intensa e A mulher na política como tema.

     

    Dia 9/10, das 12 às 14h, nossas autoras Fernanda da Escóssia (Invisíveis), Débora Thomé e Hildete Pereira de Melo (Mulheres e poder) participam da mesa Mulheres, poder, políticas públicas, com Renata Costa (candidata a deputada federal nessas últimas eleições) e mediação de Raquel Menezes.

     

     

     

     

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