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  • Postado por editora em em 03/11/2016 - 12:46

    A última catástrofe, publicado inicialmente na França e lançado agora pela FGV Editora, apresenta um quadro geral dos debates sobre os desafios e especificidades da história do tempo presente.
    A história do tempo presente é uma história como as outras? Quais são os marcos cronológicos que a delimitam? Como a história do tempo presente pode lidar com as demandas memoriais e garantir seu compromisso com as regras do ofício do historiador? Qual sua relação
    com o regime de historicidade presentista? Por que a história dos períodos recentes que enfrentou tantas resistências vem conquistando uma grande visibilidade tanto na esfera universitária quanto no espaço público?
    Henry Rousso, um dos principais expoentes da historiografia francesa dedicados ao estudo da história do tempo presente, busca responder essas questões tomando as seguintes diretrizes: “a história já não se caracteriza por tradições a respeitar, por heranças a transmitir, por mortos a celebrar, mas antes, por problemas a ‘gerir’” mediante um constante trabalho de crítica.
    O autor chama atenção ainda para os desafios que se colocam a seus profissionais, ao mesmo tempo observadores, investigadores e atores de uma história que está sendo produzida.
    Como desdobramento dessa perspectiva, propõe uma reflexão sobre certa maneira de pensar a história do tempo presente que não é apenas acompanhar uma visão traumática do passado, mas ajudar a compreendê-la e estabelecer a distância necessária ante as imposições
    da memória. Outra contribuição relevante é tornar acessível não só para os estudiosos, mas também para o público em geral alguns princípios básicos que norteiam a prática dos historiadores, que não pode ser apenas a produção de uma seleção de fatos, já que a escrita da história é produto de um lugar social e de sua relação com um corpo social mais amplo, e deve estar condicionada por uma prática científica.
    Cabe ainda mencionar que a obra apresenta indicações para a compreensão dos princípios, desafios e debates que se colocam para o historiador e a função social da história, bem como acompanhar a bibliografia atualizada acerca das grandes questões historiográficas das últimas décadas.
     

    Confira a apresentação da edição brasileira da obra:

    "A tradução desta obra no Brasil, publicada originalmente na França em 2012, constitui para mim uma honra e uma felicidade. Com efeito, pude constatar muitas vezes, seja na ocasião de algumas estadas no Brasil, seja pelos intercâmbios regulares com colegas brasileiros, quão comum era o interesse pela prática da história do presente em nossos países. De ambos os lados, houve nesses 30 últimos anos um grande investimento intelectual na maneira de abordar uma história no processo de se fazer, nos papéis respectivos da história e da memória, na importância decisiva do testemunho, da história oral e dos arquivos orais. Ainda que os contextos políticos ou sociais sejam diferentes, sinto que há uma mesma sensibilidade no Brasil e na França (assim como na Europa de modo geral) no que diz respeito à maneira de tratar as sequelas dos períodos de guerra e de violência política que deixam rastros e cicatrizes duradouros.
    Esses acontecimentos, que marcaram a história do século XX e já a do nascente século XXI, modificaram profundamente o ofício do historiador, obrigando-o a se engajar de modo permanente no espaço público, sabendo ao mesmo tempo que sua missão, que consiste em explicar
    o mais amplamente possível a complexidade do passado, iria adensar sua prática, fazendo-o sair da torre de marfim da universidade para que adentrasse um pouco mais nos vivos combates do tempo presente, tanto o seu quanto o dos homens e das mulheres que ele estuda."

    Henry Rousso | Professor pesquisador no Instituto de História do Tempo Presente (Centro Nacional da Pesquisa Científica, Paris). Escreveu inúmeros trabalhos sobre a Segunda Guerra Mundial e sobre a história da memória dos traumatismos contemporâneos.

     

    A última catástrofe: a história, o presente, o contemporâneo

    Henry Rousso

  • Postado por editora em em 27/10/2016 - 09:37

    Às vésperas das eleições presidenciais norte-americanas, todas as nações são espectadoras da disputa que elegerá o representante do país mais poderoso do mundo.

    Em meio a denúncias, escândalos e acusações de ambos os lados dos principais candidatos, o dia 8 de novembro, data das eleições, poderá ser decisivo para o futuro do mundo.

    Mas será que o candidato que receber a maioria absoluta dos votos populares será eleito?

    Nas eleições norte-americanas quem ganha torna-se presidente?

    A obra ‘A constituição norte-americana é democrática’, de Robert A. Dahl, que chega à sua segunda edição (além de ter seu eBook também lançado) através da parceria entre a FGV Direito Rio e a Editora FGV nos revela que não é bem assim.

    O livro nos apresenta todo o mecanismo desse sistema e aponta, entre várias circunstâncias, três aspectos antidemocráticos que permanecem como características intrínsecas ao sistema de colégio eleitoral adotado pelos Estados Unidos.

    Na disputa de votos populares versus votos colegiados, o candidato com maior número de votos populares — por maioria simples ou até por maioria absoluta — pode não receber a maioria dos votos dos elei­tores colegiados e, desse modo, não ser escolhido presidente. Quatro eleições presidenciais — inclusive a de 2000 — levaram exatamente a este desfecho.

    Na verdade, chegar à presidência com apenas uma minoria de votos populares tem sido uma ocorrência bastante comum. Num total de 18 eleições, os can­didatos chegaram à presidência sem conquistar a maioria dos votos populares e no cômputo geral, portanto, em uma de cada três eleições presidenciais, o cargo mais elevado da nação foi entregue a um candidato escolhido por uma minoria de eleitores. Numa eleição apertada em que candidatos de um terceiro partido obtenham alguns votos, como aconteceu na eleição de 2000, esse desfecho é sumamente provável.

    Em alguns casos em que nenhum candidato recebe a maioria dos votos populares, se a segun­da opção dos eleitores for levada em conta (como pode acontecer em alguns sistemas eleitorais), ou se houver um segundo turno en­tre os dois candidatos mais votados, O candidato pode perder tendo a preferência da maioria. Al Gore poderia teria obtido a presidência em 2000 caso os eleitores tivessem a oportunidade de expressar sua segunda opção naquela disputada eleição.

    Estes são apenas alguns pontos discutíveis sobre a democracia nas eleições norte-americanas contidos nesta instigante obra.

     

    A constituição norte-americana é democrática?

    Robert A. Dahl

    Impresso: R$34

    Ebook: R$24

  • Postado por editora em em 24/10/2016 - 08:58

    O resultado da primeira fase do 58º Prêmio Jabuti foi anunciado dia 21 de outubro e a obra O corpo da Nova República: funerais presidenciais, representação histórica e imaginário político, do professor Douglas Atilla Marcelino, é uma das dez finalistas na categoria Ciências Humanas.

    Confira a introcução da obra:

    "A “teologia política” (para retornar ao termo de Kantorowicz) do século XX ainda não foi escrita, embora tenham havido, aqui e ali, algumas tentativas nesta direção. No entanto, ela existe — ou, mais precisamente, existem várias formas dela — e enquanto não a compreendermos, pelo menos tão bem como compreendemos a dos Tudor, dos Majapahits ou dos Alawites, uma grande parte da vida pública de nosso tempo vai permanecer obscura. O extraordinário não deixou a política moderna, por mais que a banalidade nela tenha entrado; o poder ainda inebria, mas também ainda dignifica. [Geertz, 2009:214-215]"

    Se alguma certeza podemos ter sobre a experiência humana passada, é que ela deve ser considerada em sua própria historicidade. E, se tal aspecto pode parecer evidente num certo sentido, nem sempre ele parece ter sido considerado pelos historiadores. A maioria deles, entretanto, hoje compreende que a história não se reduz a modelos teóricos preconcebidos. A experiência humana é sempre mais complexa, dinâmica, multifacetada, tornando condição de possibilidade para a abordagem histórica conferir alguma fixidez a esse amontoado de relações móveis a que chamamos com alguma simplificação de sociedade ou de processo histórico. Certamente, isso pode ser feito de modo mais ou menos reducionista, embora essa última condição não possa ser completamente apagada. Assim, perceber as peculiaridades de determinados acontecimentos históricos pode parecer uma condição inexorável dentro dos cânones de uma disciplina cuja principal vocação talvez seja apontar a fragilidade de certos modelos e formalizações, sempre insuficientes quando confrontados com os vestígios da experiência passada.
    O estudo do passado recente remete a certos problemas não menos prementes aos historiadores. Algumas facilidades ocasionais podem obscurecer enormes dificuldades que, inclusive, não são menos consideráveis do que aquelas que acometem os estudos sobre períodos mais remotos da história humana. Estudar o passado recente demanda uma experiência interpretativa de natureza quase inversa àquilo que já foi identificado como fundamento do trabalho antropológico: ao esforço de transformar o exótico em familiar corresponde, por outro lado, a necessidade de não se aprisionar na comodidade do imediatismo ou da proximidade do objeto de estudo. Se não propriamente transformar o familiar em exótico, ao menos devemos procurar compreender o passado recente a partir dos horizontes de perspectivas e das possibilidades de escolhas significativos aos sujeitos históricos envolvidos nos acontecimentos estudados. Portanto, as exigências não são menores em relação aos estudos de outros períodos passados. Somente uma perspectiva simplista emprestaria maior facilidade à história recente, atitude pouco condizente com a percepção da complexidade dos condicionantes e das operações envolvidas na criação de um maior ou menor estranhamento em relação ao passado.

    É nessa perspectiva que este estudo analisa a conjuntura do adoecimento e da morte de Tancredo Neves, particularmente os grandiosos funerais que se seguiram ao seu falecimento, no dia 21 de abril de 1985. Aquele foi um momento em que os fundamentos simbólicos da comunidade política como construção imaginária foram colocados em questão de forma muito particular, configurando elementos que foram depois dramatizados nos funerais de Tancredo, sem dúvida o maior cortejo fúnebre da história do país até então. Um dos objetivos das páginas seguintes, nesse sentido, é produzir uma análise com forte preocupação etnográfica que, mesmo que incompleta por natureza, permita reconstituir historicamente aspectos mais profundos sobre as formas de ritualização do poder e as disputas pelo imaginário político na conjuntura da morte de Tancredo Neves. Cruzando o estudo de fenômenos conjunturais com outros de mais longa duração, a pesquisa aposta tanto naquilo que fornece uma singular potencialidade à abordagem histórica (a percepção da historicidade de certos eventos), quanto naquilo que permite torná-la algo mais do que uma despreocupada atenção à irredutível imprevisibilidade do passado (suas relações com elementos mais duradouros da história do país).

    Ao analisar os eventos políticos que marcaram os primeiros meses de 1985, é quase impossível não se impressionar com a sucessão de acontecimentos inesperados, com as coincidências aparentemente incompreensíveis, que pareciam predizer algo de imperioso aos contemporâneos. Depois de eleito presidente pelo Colégio Eleitoral, Tancredo foi internado na madrugada anterior à cerimônia de empossamento, quando ninguém, a não ser ele e parte de seu ciclo de familiares, imaginava que estivesse doente. Mais do que isso, sua posse não se restringiria à aparição solene de um político importante ou aos exageros de um evento meramente espetaculoso. E não somente pelo tom festivo ou porque estava sendo preparada com bastante antecedência, mas justamente por aquilo que explica ambos os aspectos: ela daria forma e expressividade ao sentimento de contentamento pelo suposto fim de um ciclo histórico, pelo surgimento de um “novo tempo” na história do país.

    Num momento extremamente frágil do ponto de vista político-institucional, em que ameaças de retorno à ditadura pareciam dar sinais constantemente, o adoecimento de Tancredo Neves podia parecer inacreditável. Afinal, com frequência, os principais meios de comunicação o
    representavam como o único responsável pela conciliação nacional, como o construtor de uma “nova era” (a Nova República), que em pouco tempo se iniciaria. Seguem-se ao acontecimento inesperado uma internação que se prolongou por quase 40 dias, marcada por sete cirurgias, reações imponderáveis do seu organismo em momentos simbólicos, como a Semana Santa, e comportamentos bastante surpreendentes (senão excepcionais) daqueles que o circundavam. Como desfecho de uma sucessão de eventos atípicos, sua morte se efetivaria no mesmo dia daquela que vitimou o principal herói da história nacional, o Tiradentes. Aspecto por si só surpreendente, ele torna-se realmente significativo pela indiscutível admiração e constante homenagem que Tancredo Neves prestava àquele que (além de tudo) foi seu conterrâneo. Desconsiderar esse acúmulo de eventos imprevisíveis, em boa parte não plenamente dependentes dos esforços dos sujeitos históricos envolvidos, seria pouco compreender dos acontecimentos daqueles meses de março e abril de 1985.

    Constituir o passado em história, entretanto, não é apenas perceber as peculiaridades de eventos inesperados, sua historicidade, aprisionando a análise nos condicionantes advindos de movimentações pouco controladas pelos sujeitos históricos. Essa é uma dimensão inexorável, impossível de ser desconsiderada. Mas reduzir a abordagem histórica a ela impediria qualquer esforço de explicação do passado. A condição do conhecimento histórico é apostar que nem tudo se reduz ao episódico e ao acaso, ainda que essa seja realmente uma aposta. Por outro lado, tais acontecimentos não podem ser desprendidos das interpretações que os contemporâneos davam a eles. Vários cientistas sociais têm ressaltado a indispensabilidade de considerar qualquer ação como simbólica ou, mesmo, que um acontecimento
    tem sua existência como um evento somente quando é mediado pela cultura. Como destacou Marshall Sahlins (2003b:144), “aquilo que é contingente só se torna plenamente histórico quando é significativo”. Portanto, superar a dicotomia entre comportamento e significado ou entre evento e estrutura pressupõe compreender a dialética entre essas duas dimensões, muitas vezes percebidas de modo simplificado como pares de opostos.

    Nesse sentido, uma pesquisa voltada para o período correspondente à morte de Tancredo Neves não poderia se reduzir à consideração dos elementos atípicos mencionados. Do mesmo modo, ela não deveria se resumir aos atos de consciência dos indivíduos mais próximos das constelações de poder. Aqui, novamente, o episódico tem que ser compreendido dentro de um plano mais geral que, por outro lado, não desconsidere algumas de suas implicações de natureza estrutural. E, de fato, muito já se discutiu sobre os motivos da morte do presidente, na maioria das vezes atribuída às ações indevidas deste ou daqueles agentes históricos.3 Logo depois do acontecimento, por exemplo, os mistérios da prática médica e os desacertos dos especialistas renderam páginas e mais páginas na imprensa e alhures, como se a responsabilização de determinados personagens permitisse compreender o fundamento do ocorrido. Se o paradoxo da disciplina histórica está na impossibilidade de desconsiderar determinadas ações e sua intencionalidade, elas não devem abarcar todo o conteúdo da análise, porquanto mais frutífero é o esforço de compreensão do modo como os significados a elas atribuídos permitem pensar formas específicas de expressão simbólica do lugar do poder como construção imaginária, redimensionando tais comportamentos dentro de um quadro mais complexo de mudanças históricas. Somente assim se pode compreender de forma menos simplificada por que certas discussões ou ações foram tão valorizadas e quais os sentidos que adquiriram num momento muito específico do ponto de vista histórico.

    O estudo da conjuntura que antecedeu à morte de Tancredo Neves visa apenas fornecer elementos à reflexão sobre as reelaborações por que passava sua memória e, assim, abrir caminho ao estudo do objeto principal desta pesquisa: seus funerais, que serão analisados dentro do amplo quadro das homenagens fúnebres prestadas aos presidentes brasileiros do pós-1930. Na verdade, funerais como os de Tancredo Neves são entendidos aqui como eventos que permitem refletir sobre mudanças mais profundas nas formas de ritualização e incorporação do poder que conferem sentido à comunidade política, inclusive no que diz respeito às alterações no significado simbólico da figura presidencial no pós-1930 da história brasileira, tendo em vista que a figura de Getúlio Vargas (não pelo personagem em si, mas por aquilo que ele passou a representar) pode ser tomada como indicativa do surgimento de novos modos de compreensão e representação do significado do chefe do Executivo.Tais transformações, em certa medida, podem ser interpretadas como redefinições sofridas pela cultura política republicana, desde que o conceito seja entendido numa perspectiva atenta às ações dos sujeitos históricos nas constantes disputas e reinvenções das tradições e símbolos que permitem dar significado às instituições e coletivos imaginários pelos quais se manifestam os fundamentos subjetivos da política.

    Uma preocupação igualmente relevante desta pesquisa se relaciona ao modo como os eventos e o tempo podem ser considerados objetos de experimentação da narrativa histórica. A experiência, o vivido, o acaso constituem elementos que, durante longo período, foram praticamente ignorados por um modelo de macro-história muito praticado no século XX. Além de tentar revalorizá-los, fundamentamos a parte central da pesquisa no estudo de eventos que duraram apenas três dias: as intensas homenagens que compuseram os funerais de Tancredo Neves, interpretados numa perspectiva que tentou se aproximar daquilo que Clifford Geertz chamou de “descrição densa” para caracterizar o trabalho antropológico. A ideia, nesse caso, foi pensar tais eventos, cada vez mais, dentro de uma temporalidade subjetiva, naquilo que o culto do corpo do presidente significou em termos de uma expectativa de refundação da República e de um novo sentido projetado para a história nacional.

    Um único acontecimento (a morte de Tancredo Neves), portanto, é compreendido aqui como elemento que articula todas as principais interrogações que atravessam a pesquisa. Resgatados daquilo que os condenava como objetos de uma história “historicizante”, os eventos têm sido revalorizados nos últimos anos, podendo ser pensados como elementos-chave à compreensão de fenômenos históricos que os ultrapassam, desde que abordados numa perspectiva diferenciada. Ou seja, mais do que os eventos em si, a análise recai sobre o modo como eles colocam em jogo elementos estruturais, sobre o significado histórico que adquirem quando apropriados por meio de sistemas culturais. Até porque, é bom destacar, a revalorização dos eventos como objeto de investigação está longe de permear os estudos de certos universos temáticos para os quais os historiadores têm se voltado com mais afinco recentemente.

    Um bom exemplo é o já vasto campo de análise sobre as reformulações por que passa a memória nacional: não parecem muitas as pesquisas centradas no modo como um determinado acontecimento da história recente (que não seja um evento comemorativo) pode estimular a retomada de mitos fundadores da nacionalidade ou a construção de diferentes versões sobre a história do país. Nesse plano, de modo geral, os historiadores têm se preocupado mais com a produção dos próprios historiadores, com a consolidação de determinadas explicações da trajetória nacional formuladas em obras já consagradas dentro do universo letrado, sobretudo do século XIX. Essas interrogações são fundamentais, mas podem ser também redirecionadas à reflexão sobre outros problemas conexos e menos estudados: como um evento da história recente pode estimular a retomada, ou mesmo a reformulação, dessas diferentes versões sobre a história do país? O que um evento como a morte de um presidente pode colocar em jogo em termos daquilo que já parece relativamente consolidado no imaginário sobre a nação? Essas interrogações são importantes, pois remetem ao problema sobejamente mais amplo das relações entre mitos e eventos, para o qual os historiadores talvez devessem se voltar de forma mais recorrente.

    De fato, é no plano das relações entre evento, tempo, memória e mito que esta pesquisa se articula. No que se refere ao acontecimento e seus significados, por outro lado, ela permitirá também colocar em questão as próprias formas da representação histórica, somando-se ao esforço de problematizar os procedimentos narrativos aqui utilizados na “descrição densa” dos funerais presidenciais. Isso porque, logo após a morte de Tancredo Neves, foi elaborada uma narrativa histórica sobre os eventos que, juntamente com outras formas de representação do passado recente, disputava a figuração do “povo brasileiro” como personagem central de uma história que foi imediatamente colocada em questão pelo trágico acontecimento político ocorrido. Trata-se de um momento em que as fronteiras entre o público e
    o privado pareciam mais do que nunca passíveis de reinvenções, tendo em vista que as disputas em torno do corpo presidencial simbolizavam a abertura de espaço para um imprevisível aparecimento da política como lugar de manifestação do dissenso, de modo semelhante ao que categorizaram alguns autores preocupados com as peculiaridades da época democrática (Lefort, 1991a). Tal como certas práticas culturais de ritualização do luto, aquela narrativa histórica parecia tentar amenizar a dor da perda por meio de uma encenação narrativa que, conferindo um lugar ao morto, conformava um sentido para a vida dos vivos, num momento em que a tragicidade dos acontecimentos experimentados tornava particularmente urgente a necessidade de assegurar o futuro das instituições republicanas.

    Nessa inesperada manifestação da política, por outro lado, o surgimento do novo e a imprevisibilidade do passado ganham espaço na própria narrativa aqui produzida, permitindo relativizar o estudo apenas das condições de possibilidade dos eventos em favor de um olhar atento tanto às incertezas daqueles que vivenciaram as experiências aqui reconstituídas quanto àquilo que, tomando o passado como lugar de manifestação da diferença, impede que a história se transforme numa contínua repetição do mesmo. Nessa perspectiva, a conjuntura da morte de Tancredo Neves não configurou apenas um momento propício à acentuação de uma tendência à privatização do poder que a ultrapassava, mas parece ter flexibilizado de forma radical e dramática o espaço de disputa pelas estruturas formais da política, manifestando, num curtíssimo espaço de tempo (da morte e dos funerais presidenciais), algo semelhante àquilo que autores célebres acabaram projetando para uma mais larga duração ao buscar pelas especificidades das democracias modernas.

    Nesse tipo de perspectiva, a análise dos funerais de Tancredo Neves remete não apenas para os discursos sobre a nacionalidade que fizeram parte daquele ritual, mas para as formas de representação do poder que, reconfigurando um imaginário político, se expressavam tanto nas disputas pelo corpo do presidente morto como símbolo do corpo político da nação quanto nos ingredientes narrativos que, funcionando igualmente como práticas de luto, permitiam a figuração poética do “povo brasileiro” em diferentes formas de representação do passado. Assim, a preocupação com a natureza simbólica do poder e suas fundamentações antropológicas, que se manifestavam no novo sentido conferido à figura presidencial, pode ser aproximada do que já foi chamado de uma poética do saber, já que os modos de
    incorporação do poder estão relacionados com formas específicas de subjetivação política, enraizando os próprios discursos que figuram ou colocam em questão entidades que conferem significado à vida coletiva.

    De modo geral, estão aqui delineadas as principais preocupações que atravessam esta pesquisa. Vale a pena, portanto, fazer uma breve apresentação do modo como o texto foi estruturado, dividindo-se em quatro partes. A primeira delas praticamente dá continuidade a esta introdução, sendo importante para uma compreensão mais profunda dos objetivos do trabalho, já que poderemos destacar os fundamentos que amparam o estudo dos funerais de Tancredo Neves e outros importantes personagens políticos. Seus capítulos permitirão historicizar a transformação de determinados tipos de cerimônias fúnebres em eventos de celebração nacional, focando desde aquilo que tornou possível sua ritualização numa “chave de leitura” historicista durante o século XIX até as mudanças que caracterizaram os funerais de certos presidentes brasileiros do século seguinte. Paralelamente, poder-se-á realizar uma análise da historiografia já produzida sobre os funerais de outros personagens do período republicano brasileiro, assim como determinados estudos antropológicos, situando esta
    pesquisa num quadro mais amplo de discussões.

    Na segunda parte, faremos um estudo das reconstruções da memória de Tancredo Neves no período que antecedeu aos seus funerais. Atravessada por uma preocupação de natureza fortemente etnográfica, seu objetivo é mapear um conjunto de ocorrências históricas que permitirão compreender os sentidos singulares que a morte do presidente podia assumir naquela conjuntura específica da história do país. Ela também se fundamenta, portanto, nas potencialidades que a noção de “descrição densa” pode apresentar para uma análise que se pretende fortemente histórica e antropológica.

    Na terceira parte, a mais importante, analisaremos os funerais de Tancredo Neves. Sua abordagem poderá se beneficiar dos capítulos anteriores, com vistas a fundamentar uma interpretação centrada naquilo que uma experiência ritual particular pode dramatizar de certos condicionantes históricos de maior e menor duração dentro da história brasileira. Antes disso, um primeiro capítulo abordará os funerais de presidentes brasileiros do pós-1930, permitindo compreender melhor as mudanças que atravessaram tais eventos-rituais após a morte de Getúlio Vargas e, assim, abrindo caminho ao estudo do caso de Tancredo Neves (que é de fato aquele no qual se poderá perceber as preocupações teóricas que permeiam a pesquisa).

    Já na quarta e última parte analisaremos três diferentes formas de narrativa que, ao tematizarem a morte de Tancredo Neves, conferiam um sentido determinado à história nacional, permitindo colocar em questão as próprias formas da representação histórica. No texto introdutório de cada uma das quatro partes do livro, por fim, o leitor poderá encontrar uma apresentação mais pormenorizada dos problemas ali enfrentados.

     

    O corpo da Nova República: funerais presidenciais, representação histórica e imaginário político

    Douglas Attlia Marcelino

    Impresso: R$55

    Ebook: R$39

  • Postado por editora em em 20/10/2016 - 09:46

    A pesquisa apresentada na obra de Igor Gastal Grill e Eliana Tavares dos Reis, Elites parlamentares e a dupla arte de representar, tem como problemática mais ampla a existência de intersecções entre diferentes lógicas e domínios do mundo social. Tais intersecções vêm sendo examinadas como resultantes e viabilizadoras dos potenciais de afirmação e de trânsito de vários segmentos de “elites”. Agentes, portadores de determinadas características sociais e empreendedores em certas atividades, inseridos em configurações históricas nas quais as fronteiras são fluidas e porosas, contam com condições propícias à ocupação de posições relativamente bem situadas e ao acúmulo de multinotabilidades. Os autores dão ênfase particularmente a intercruzamentos entre “política” e “cultura”, explorando distintos universos empíricos, períodos históricos e níveis de análises.

    Confira parte da introdução da obra:

    No Brasil, há muitas discussões sobre as interferências da “política” no trabalho intelectual que, não raro, são posicionamentos que ora as percebem pela falta (assumindo o caráter reivindicatório de uma “missão histórica”), ora pelo excesso (expressando o cunho denunciativo de um lamento cientificista). Porém, algumas pesquisas recentes têm privilegiado abordagens mais sócio-históricas para considerar os períodos de menor ou maior (in)distinção entre os domínios e registros políticos e culturais. A ênfase, nesse caso, geralmente recai, em um plano, sobre os processos históricos e os condicionantes sociais de maior ou menor diversificação e autonomização (sempre relativa) entre eles, e, em outro plano, sobre as lógicas de seleção e de hierarquização dos seus agentes.
    Esta última foi a trilha inicial seguida nas investigações que originaram os capítulos deste livro. No entanto, levando em conta que poucas são as pesquisas que têm aportado sobre a importância das inscrições culturais no trabalho político, invertemos o ponto de partida dominante. Isso se justifica pela constatação de que, não somente como estratégia de apropriação de produtos concebidos nos mundos culturais (literatura, ciência, filosofia, religião etc.), na luta pela conquista ou manutenção de posições relativamente bem alocadas no espaço público, a produção mesma de bens culturais e o reconhecimento como “intelectual” são dimensões significativas da própria atividade política e funcionam como trunfos de distinção contundentes.
    Há uma extensa bibliografia produzida por cientistas sociais brasileiros nas últimas décadas sobre carreiras e perfis de políticos. Grosso modo, a literatura — a despeito das divergências entre os autores que adotam perspectivas mais societais, organizacionais, de caráter mais objetivista ou perspectivista — lança luzes sobre os padrões de institucionalização das organizações políticas brasileiras, as clivagens partidárias e o recrutamento do pessoal político. Para o que está em pauta nos textos que compõem esta coletânea, desejamos esclarecer a primordialidade da noção de carreira política para abarcar os desdobramentos das apostas feitas por agentes desde suas entradas na política, nos termos apresentados por Michel Offerlé (1996). Ou seja, procurando apreender as modificações nos princípios de aferição de excelência humana e sua reconversão em critérios de hierarquização política e intelectual, bem como as gramáticas que fixam complementaridades entre os domínios políticos e culturais em diferentes conjunturas.
    Nesse caso, é importante realçar pelo menos quatro eixos analíticos, construídos ao longo das pesquisas realizadas, portanto, que estão na base das reflexões subsequentemente apresentadas. O primeiro se refere à verificação de um duplo e indissociável reconhecimento conquistado por agentes que se afirmam como porta-vozes de “causas” legítimas, contando com a notoriedade como “intelectual” e de estima por sua carreira política — sinalizando para as fronteiras fluidas, os princípios amalgamados, os perfis híbridos e os trânsitos possíveis de serem operados. O segundo diz respeito às modalidades de intersecção entre domínios políticos e domínios culturais orquestradas por agentes empenhados no trabalho de politização de bens culturais e de intelectualização das lógicas e práticas de intervenção política. O terceiro concerne mais diretamente às teorizações nativas acerca de regras, papéis e definições concorrentes nos jogos políticos e culturais, e que não raro deixam perceber a construção consagradora ou detratora de “etiquetas políticas”, de eventos e personagens, de códigos de conduta etc. E o último eixo trata do trabalho simbólico de autoapresentação e de administração de identidades estratégicas, levado a cabo por agentes com mandatos para gerir os bens políticos, com certificações para participar da disputa pela prescrição de princípios de visão e divisão do mundo social e dispostos a fabricar ou gerenciar imagens de si — conforme as posições ocupadas em determinados estágios das lutas políticas e culturais nas quais se encontram envolvidos.
    Tais aspectos convergem na percepção de que, no espaço social mais amplo, o acesso a determinados conhecimentos e ao trabalho de formulação intelectual (em oposição ao mundo prático, não reflexivo, pragmático, ordinário) legitima posições de poder, sedimentando reputações distintivas em e entre diversos segmentos de grupos dominantes (jurídicos, midiáticos, religiosos, universitários etc.). Particularmente no universo político, a capacidade de uso da “palavra” escrita e oral, certificada na mobilização de recursos multifacetados que sustentam a força ilocucionária dos discursos (Bourdieu, 1996a), deve ser investigada como condição e condicionante das entradas e como trunfo contundente para a construção de carreiras políticas reconhecidas como singulares.

    Elites parlamentares e a dupla arte de representar: Intersecções entre "política" e "cultura" no Brasil

    Igor Gastal Grill e Eliana tavares dos Reis

    R$35,00

  • Postado por editora em em 11/10/2016 - 10:28

    Como nasceu a indústria do vinho no Brasil? Quem são os personagens dessa história ainda pouco conhecida? O que levou descendentes de colonos e agricultores, tradicionais plantadores de uvas, a se transformarem em enólogos e empresários da indústria do vinho no Brasil?

    A obra ‘Vinhos do Brasil – do passado para o futuro’ pretende apresentar um panorama da indústria do vinho no Brasil e contar sua trajetória através de depoi­mentos de descendentes de imigrantes italianos que se estabeleceram na Serra Gaúcha no final do século XIX e se dedicaram à vitivinicultura.

    Os coordenadores da obra, Valdiney C. Ferreira e Marieta de Moraes Ferreira, recorreram à metodologia da história oral, com a realização prévia de uma pesquisa consistente sobre o tema, e entrevistas de cará­ter histórico e documental realizadas no último ano que permitiram construir um painel representativo deste percurso.

    Os depoimentos orais de mais de 30 descendentes desses imigrantes estão reunidos nesta obra, que permite a compreensão da trajetória dos 140 anos da nascente indústria brasileira do vinho, seu caminho de modernização e suas perspectivas para o futuro, despertando interesse em historiadores, empresários, gestores de negócios e amantes do vinho.

    A obra será lançada no Centro Cultural FGV, dia 18 de outubro, às 17h30, após a realização do Seminário Vinho & Mercado, que faz parte da programação do Rio Wine and Food Festival 2016.

     

    Em breve no site da Editora FGV. Aguarde!

  • Postado por editora em em 05/10/2016 - 15:25

    O Seminário Vinho & Mercado 2016, promovido pela FGV e pela Baco Multimídia, promove o encontro de especialistas nacionais e internacionais para apresentações e debates sobre os desafios, oportunidades e desempenhos do mercado de vinho no Brasil e no mundo.

    O encontro, que faz parte da quarta edição do Rio Wine and Food Festival, será realizado pela primeira vez no Centro Cultural da Fundação Getulio Vargas e reunirá profissionais responsáveis e envolvidos com o negócio do vinho, além de experts em outras áreas de mercado que veem ganhando importância na economia e na inovação de negócios.

    Esta edição do seminário contará com mesas sobre wine truck  e sobre a influência do mundo digital neste mercado de vinhos, além de apresentações de vinicultores e responsáveis por institutos e associações do vinho do Brasil e de outros países.

    O Seminário Vinho & Mercado 2016 será dia 18 de outubro e terá como encerramento o coquetel de lançamento do livro ‘Vinhos do Brasil – do passado para o futuro’.

    A obra, publicada pela Editora FGV, apresenta a história de vinicultores do Sul do Brasil, descendentes de imigrantes italianos, através de entrevistas feitas ao longo do último ano por seus coordenadores, Marieta de Moraes Ferreira (diretora da Editora FGV) e Valdiney C. Ferreira (coordenador do Curso Negócio do Vinho).

    O livro traz um apanhado da história do surgimento das viniculturas na Serra Gaúcha e um panorama da indústria do vinho no Brasil, com depoimentos de gerações de vinicultores que mantém as tradições de antepassados aliadas à modernização das instalações e dos vinhedos produtores.

     

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    Confira a programação do Seminário:

     

     

  • Postado por editora em em 21/09/2016 - 11:20

    A Editora e a Livraria FGV promovem, no dia 22 de setembro, o lançamento de duas novas obras que integram a Coleção FGV Universitária.

    Esta coleção reúne livros voltados para cursos de graduação em Administração de Empresas e Economia, todos desenvolvidos por professores da Fundação Getulio Vargas.

    O objetivo das obras é oferecer base teórica atualizada para as disciplinas ligadas tanto às ciências exatas quanto às ciências humanas, mantendo clareza e objetividade em seus conteúdos.

    Gestão de pessoas: uma vantagem competitiva?, das professoras Maria Zélia De Almeida Souza e Vera Lucia De Souza, aborda o tema da gestão de pessoas com o foco na crença, por parte das autoras, de que uma organização apenas será o que quer ser se for capaz de despertar em cada indivíduo que nela atua o desejo de oferecer o melhor que possui em sua bagagem pessoal. Daí o entendimento de que esse é o principal desafio gerencial. A mudança no ambiente de negócios construído para o atendimento das demandas da reestruturação produtiva dos anos 1990, bem como suas repercussões nesse campo do saber, são o pano de fundo dos capítulos deste livro.

    Administração Financeira 1: finanças para empreendedores e iniciantes, do professor Jose Carlos Abreu, apresenta os assuntos das finanças nas empresas de uma forma simples e direta. Primeiro, são introduzidas as situações e as dificuldades práticas para a abertura e o desenvolvimento de uma empresa, com questões, dúvidas e perguntas que os iniciantes e empreendedores costumam ter ao pensar em criar suas empresas. Na sequência, sempre dentro de cada capítulo, o livro traz soluções, modelos, justificativas, explicações e os conceitos fundamentais utilizados pelos executivos financeiros no dia a dia dos mercados para responder às suas questões e dúvidas.

    Os autores estarão presentes para a noite de autógrafos na Livraria FGV, nesta quinta-feira, às 17h30.

     

    Confira mais obras que fazem parte da Coleção FGV Universitária no site da Editora FGV em http://editora.fgv.br/colecao-fgv-universitaria

     

  • Postado por editora em em 15/09/2016 - 08:27

    Com uma enorme difusão nas culturas políticas de elites intelectuais e autoritárias na Europa e na América Latina dos anos de 1930, o corporativismo social e político foi a principal alternativa conservadora à democracia liberal no período entre guerras.

    Esta tendência de escolha ocorreu tanto como um processo capaz de reprimir, quanto de cooptar o movimento trabalhista, os grupos de interesse e as elites.

    Com o objetivo de analisar esta relação entre corporativismo e ditaduras, a Editora FGV lança a obra A onda corporativa: corporativismo e ditaduras na Europa e na América Latina, publicada originalmente em Portugal com o título 'A vaga corporativa', expressão mantida em todo a redação.

    Os textos, organizados por António Costa Pinto, professor da Universidade de Lisboa, e Francisco Palomanes Martinho, professor da Universidade de São Paulo, defendem que as experiências ditatoriais foram as responsáveis pela institucionalização do corporativismo, fazendo dele não só um pilar da sua legitimação política como também um instrumento de intervenção econômica e social.

    Neste livro, o corporativismo é analisado como um dispositivo social e político contra a democracia liberal e que permeou a direita durante a primeira onda de democratizações, demonstrando que este sistema esteve na vanguarda do processo de difusão transnacional, tanto como uma nova forma de representação de interesses organizados, quanto como alternativa autoritária à democracia.

     

    Confira a apresentação da obra:

       Este livro tem como objetivo a análise da relação entre corporativismo e ditaduras, tema de estudo antigo no Brasil e em Portugal, dada a sua forte implantação, mas subestimado nos estudos comparados sobre as ditaduras do século XX. Com uma enorme difusão nas culturas políticas de elites intelectuais e políticas autoritárias na Europa e na América Latina dos anos 30, o corporativismo social e político foi a mais conseguida alternativa conservadora à democracia liberal na primeira metade do século XX. De facto ainda que os seus polos de irradiação ideológica e política tenham sido diversos e nem sempre autoritários, foram as experiências ditatoriais que institucionalizaram o corporativismo, fazendo dele não só um pilar da sua legitimação política como também um instrumento de intervenção económica e social.

       Institucionalizadas no despertar de democratizações polarizadas, as ditaduras do Entre Guerras tenderam a escolher o corporativismo, tanto como um processo capaz de reprimir, quanto de cooptar o movimento trabalhista, os grupos de interesse e as elites, por meio dos legislativos «orgânicos». É a partir dessa perspetiva que este livro analisa os processos de adoção de instituições corporativas sociais e políticas em alguns países da Europa e da América Latina na primeira metade do século XX.

       Assim, no capítulo 1, António Costa Pinto examina o papel do corporativismo como um dispositivo social e político contra a democracia liberal e que permeou a direita durante a primeira onda de democratizações. Processos poderosos de transferências institucionais marcaram as ditaduras do Entre Guerras e o autor demonstra como o corporativismo esteve na vanguarda desse processo de difusão transnacional, tanto como uma nova forma de representação de interesses organizados, quanto como alternativa autoritária à democracia.

       Na Europa dos anos 30 os modelos de institucionalização do corporativismo pelo regime fascista italiano, pelo Estado Novo de Salazar, e pela Ditadura de Dollfuss, na Áustria, foram os modelos mais marcantes que se difundiram em muitas ditaduras no período entre as duas guerras mundiais. Ainda que os regimes de Sidónio Pais em Portugal (1918) e de Primo de Rivera em Espanha (1923-1931) tenham sido pioneiros, foi o fascismo italiano o grande motor da difusão a partir da Carta del Lavoro e da tentativa de superação da representação liberal.

       Goffredo Adinolfi analisa o percurso de formação do sistema político fascista, procurando evidenciar as suas congruências e incongruências com o modelo de Estado corporativo e orgânico. Definindo o corporativismo orgânico como a tipologia de regime na qual a relação entre indivíduo e Estado deixa de basear-se numa relação voluntarista, princípio instituído pelas teorias contratualistas de matriz liberal, para uma relação na qual o indivíduo é parte de um único corpo físico, Adinolfi estuda as tensões da institucionalização dos corporativismos social e político no regime fascista, concluindo com a tese de que o fascismo italiano não foi, como alguns sublinharam, «a história de uma irremediável e profundíssima distância entre projetos e realizações» mas a concreta e plena atuação de uma das suas possíveis versões.

       No capítulo seguinte, Gerhard Botz estuda a institucionalização do corporativismo na Áustria de Dollfuss. Com uma das escolas corporativas católicas mais influentes na Europa Central e Oriental, a ditadura de Dollfuss começou por ser uma coligação entre partidos conservadores que sempre tinham olhado com relativo ceticismo a democracia parlamentar e um grupo de fascistas declarados, que foi conquistando cada vez mais influência dentro do regime. Na Áustria, as propostas corporativistas para a reforma antissocialista, antiliberal e antidemocrática da sociedade e da política foram diversas. No entanto, a construção ideológica criada pelo regime Dollfuss-Schuschnigg foi a mais abrangente e sistemática jamais desenvolvida por um Estado seguidor do corporativismo. A Constituição de 1934 foi acompanhada por diversas leis e decretos que deviam ser implementados de modo gradual, e a constituição corporativa permaneceu por implementar, dada a curta duração da ditadura que em 1938 sofre a anexação pela Alemanha nazi. Não obstante, representou a mais clara expressão de um sistema de pensamento corporativo jamais aplicado a um Estado, ainda que fosse um compromisso entre as propostas conservadoras e cristãs de corporativismo social e o corporativismo político mais explicitamente ditatorial dos fascistas e dos seguidores de Otmar Spann.

       O Estado Novo português de Oliveira Salazar constituiu a mais longa experiência ditatorial do século XX que se legitimou política e socialmente no corporativismo. Teve um «Estatuto do Trabalho Nacional» que se inspirou no fascismo italiano mas temperado pelo catolicismo social, e declarou-se um Estado «Unitário e Corporativo» pela Constituição de 1933. Ainda que as corporações só tenham sido criadas nos anos 50, a ditadura de Salazar institucionalizou ao lado de um parlamento ocupado pelo partido único uma Câmara Corporativa, cujas funções são analisadas no capítulo 4, da autoria de José Luís Cardoso e Nuno Estêvão Ferreira. À Câmara Corporativa ficou reservada uma função de representação orgânica «de autarquias locais e de interesses sociais, considerados estes nos seus ramos fundamentais de ordem administrativa, moral, cultural e económica », que funcionava como segunda câmara não eletiva em que prevalecia o princípio de uma suposta consagração do reconhecimento atribuído a sectores-chave da sociedade, retoricamente apelidados de «forças vivas da nação». Os autores concluem que esta contribuiu de forma decisiva para a criação de bases técnicas e de suportes ideológicos ao funcionamento do regime.

       O corporativismo social e político marcou profundamente também a Espanha, e as suas duas experiências autoritárias no século XX foram ilustrativas de uma precoce adopção das duas faces do corporativismo, com a ditadura de Primo de Rivera (1923-1930), a partir do campo conservador, e depois com o franquismo, bem mais próximo do fascismo. No capítulo 5, Glicerio Sanchez Recio analisa a primeira tentativa de implantar um regime corporativo em Espanha durante a ditadura do general Primo de Rivera, a partir de 1926, com a publicação do decreto-lei sobre a organização corporativa do trabalho, obra do ministro do Trabalho, Eduardo Aunós, e depois com o franquismo que, para além da do Fuero del Trabajo, versão franquista da Carta del Lavoro do fascismo italiano, vai criar um «parlamento corporativo», as Cortes, com voto «orgânico» e representação corporativa.

       O capítulo 6 é dedicado aos debates sobre o corporativismo em França que culminaram na publicação da Charte du Travail pelo regime de Vichy. Os intelectuais e os movimentos políticos franceses estão entre os mais influentes polos de difusão do corporativismo junto das elites europeias e latino-americanas. AAction Française foi apenas um deles, que marcou grupos que vão do Integralismo Lusitano, à Accion Española, e aos nacionalistas argentinos. Mas este polo tradicionalista é apenas um de entre vários e Vichy será marcado por uma tensão entre estes e sectores mais modernizadores como aliás acontecerá em outros regimes como o Estado Novo de Getúlio Vargas. Como sublinha Olivier Dard na conclusão, foi com Vichy que o corporativismo se institucionalizou em França, passando do projeto à realização. Mas foi também com Vichy que o corporativismo em França caiu num descrédito do qual não mais recuperou.

       No capítulo 7, Francisco Palomanes Martinho elabora uma comparação entre os modelos sindicais e corporativos do Brasil e de Portugal.No Brasil como em Portugal os agentes do Estado foram entendidos pelos trabalhadores como aliados em favor de suas demandas. Nos dois países a recusa patronal em aceitar as novas regras e os limites impostos pelos respetivos governos foi uma constante. A despeito das evidentes semelhanças, diferenças entre os casos português e brasileiro também lhe merecem observação. No Brasil pode-se dizer que o processo legislativo foi mais amplo, na medida que o Estado desde o início adotou regras que em parte se mantiveram por décadas a seguir à queda do Estado Novo. Além disso, a tendência no Brasil foi fazer com que as leis aprovadas pelo Estado fossem, guardadas as especificidades, as mesmas para todas as categorias profissionais. Em Portugal a implantação da legislação sobre os sindicatos sofreu um processo mais experimental, permitindo alterações que mudavam as conceções originais. Por outro lado, a oposição renhida das classes proprietárias ao corporativismo e a crise decorrente da guerra determinaram novos rumos à política social portuguesa, mas não a queda do ditador. Em outras palavras, enquanto no Brasil houve continuidade sem Vargas, em Portugal temos a descontinuidade apesar da permanência de Salazar. Os quatro capítulos seguintes são aliás dedicados exclusivamente à experiência brasileira.

       A difusão do corporativismo no Brasil teve como agentes partidos, instituições estatais, técnicos e intelectuais, mas as primeiras experiências corporativas ocorreram a partir da década de 1930 e tornaram-se constitucionais em 1934. A Carta de 1934 representou a introdução da representação corporativa e a ampliação dos direitos sociais na Constituição. No capítulo 8, Claudia Viscardi aprofunda o primeiro aspeto, o da proposição e encaminhamento da representação corporativa, o que marca a origem das primeiras experiências brasileiras neste campo. O seu objetivo é compreender como a representação corporativa ocorreu e tentar delimitar os principais atores envolvidos com a proposição, seus interesses e suas vinculações teóricas.

       No caso do Brasil é também impossível falar de corporativismo sem falar de Oliveira Vianna, o seu principal ideólogo e simultaneamente o seu mais importante legislador. No capítulo 9, Fabio Gentile, analisa a apropriação das ideias fascistas e corporativas no pensamento de Oliveira Vianna pensado como processo de «circulação-compartilhada» de ideias em nível global entre as duas guerras mundiais, de forma a compreender como, a partir do modelo italiano, ele foi recebido e reelaborado no pensamento nacionalista autoritário de Oliveira Vianna. Como e em que medida na sua qualidade de consultor jurídico do Ministério do Trabalho durante a década de 30 este se apropriou do modelo de Alfredo Rocco, modificando e adaptando-o de forma compatível com a realidade brasileira? A sua resposta passa pela revisão do conceito de «autoritarismo instrumental » de Oliveira Vianna, teorizado pelo cientista brasileiro W. G. dos Santos. Em outras palavras, a questão central que o autor coloca neste trabalho é como foi possível no pensamento de Oliveira Vianna, ideólogo do Estado autoritário, adaptar para a sociedade brasileira o Estado corporativo, pensado como o melhor e mais moderno «instrumento » para pôr ordem na crise do estado liberal, sem necessariamente cair na teoria da «ditadura permanente» do fascismo.

       Os partidos fascistas da Europa Ocidental e do Sul fizeram do corporativismo um ponto central dos seus programas políticos, muitas vezes radicalizando a sua componente mais totalizante perante os conservadores e católicos sociais. No caso da Ação Integralista Brasileira, a formação católica de Plínio Salgado, as ligações antigas aos Integralistas Lusitanos e a influência do fascismo italiano não entraram em tensão. Como demonstra Leandro Pereira Gonçalves no capítulo seguinte, Salgado concebia o corporativismo sob a ótica católica, e com esse pensamento, aliado a fatores ligados à circularidade cultural na qual estava inserido, traçou o modelo de Estado corporativo baseado no Estado integral, e por ser o chefe nacional, detentor do maior posto dentro da hierarquia integralista, a sua doutrinação católica em defesa da revolução espiritual de base orgânica, em defesa do revigoramento da alma brasileira e com a pretensão de resgatar as raízes nacionais, foi um elemento hegemónico no contexto integralista. O integralismo colocava-se como um movimento que deveria unir todas as esferas da sociedade em uma estrutura única instituída no Estado integral. A ordem normalizadora da AIB suprimia as vontades individuais em prol de um bem maior: a unidade do Brasil sob um Estado integral, que representava a organização do Estado corporativo.

       Chegamos então a um tema que atravessa quase todo este livro, as constituições autoritárias e a maior ou menor consagração do corporativismo nos sistemas políticos autoritários. No caso do Brasil, a Constituição de 1937, da autoria de Francisco Campos, ministro do Estado Novo de Getúlio Vargas, ainda que não tivesse entrado em vigor, é o tema do capítulo 11, da autoria de Rogério Dultra dos Santos. Francisco Campos é um intelectual e político que provém do liberalismo crítico e que vai evoluindo para a defesa do autoritarismo, mas, ao mesmo tempo, não ignorando a existência de suas instituições enquanto ainda não é possível desfazer-se delas. A Constituição de 1937 é monoliticamente antiliberal, elimina o funcionamento de partidos políticos, restringe o sufrágio, atribui poder legislativo à administração e submete-se a si própria e ao Judiciário ao Chefe do Executivo. Como salienta o autor, Campos concebe o corporativismo como o resultado de um Estado protetor e árbitro, capaz de conduzir o domínio da economia sob a lógica do bem comum e não do interesse individual. Mas o Estado Novo não representou nem somente uma centralização dos poderes no Executivo, nem uma mera organização política de carácter corporativo. A incorporação social e cultural das massas, a crítica pormenorizada das instituições liberais, e a oposição entre democracia liberal e democracia orgânica são elementos constitutivos do discurso legitimador do Estado Novo brasileiro.

       Finalmente os dois últimos capítulos abordam dois casos-fronteira na relação entre corporativismo e ditaduras na América Latina. A Argentina de Uriburo e Perón e a Colômbia de Laureano Gómez. Na Argentina, o período entre 1930 e 1946 foi marcado por profundas transformações que incluíram a lenta agonia do liberalismo e a emergência de uma nova Argentina cada vez mais alicerçada em ideias corporativistas antiliberais e anticomunistas. Para Federico Finchelstein, o golpe militar do general José Felix Uriburu, em 1930, inicia o período em causa, que termina com a eleição como presidente do general Juan Domingo Perón. Em termos de corporativismo, o período começa com uma ditadura corporativista e termina com a emergência de uma democracia autoritária corporativista. Durante estes anos, o movimento nacionalista – a versão argentina do fascismo – foi o principal paladino do corporativismo no país. Mas, esta é a principal conclusão do autor, na Argentina, apesar de surgido como uma resposta de direita à derrota global do fascismo, o populismo iria reformular o corporativismo ao longo dos anos que se seguiram, adquirindo com Perón «uma forma de antipolítica transcendental».

       Para terminar, como que encerrando um ciclo de ascensão e queda do corporativismo associado a ditaduras e/ou a reformas autoritárias da representação liberal da primeira metade do século XX, Helwar Hernando Figueroa Salamanca analisa a proposta de criação de um Estado corporativo na Colômbia. Uma iniciativa falhada do presidente Laureano Gómez, num contexto no qual as associações económicas encontraram o apoio de importantes sectores do clero católico, que viam na ideia corporativa a melhor arma contra o liberalismo, económico e político, sem esquecer o seu papel de ferramenta ideológica para utilizar contra as ideias de um socialismo de Estado. Laureano Gómez quis então eclipsar os moderados e sentiu-se com a força suficiente para pôr em prática um corporativismo político e social de cariz autoritário e que era conforme ao seu pensamento tomista e tradicionalista, tendo a singularidade de o fazer nos anos 50 do século XX.
     

    O livro será lançado na segunda-feira, dia 19 de setembro, às 19h, na Blooks Livraria de Botafogo.

    Às 15h do mesmo dia, os autores António Costa Pinto e Francisco Palomanes Martinho estarão presentes no debate sobre a obra, junto ao professor do CPDOC, Marco Aurélio Vanucchi, no auditório 307 do edifício-sede da FGV, no Rio de Janeiro.

    A onda corporativa

  • Postado por editora em em 25/08/2016 - 09:24

    2016 é ano de livros em São Paulo.

    A 24ª edição da Bienal Internacional de São Paulo começa nesta sexta-feira, 26 de agosto, e nosso estande está pronto para receber todos os leitores paulistas e visitantes da cidade.

    Além de encontrar todo nosso catálogo de livros de economia, administração, direito, marketing, ciência política, história, entre várias outras categorias, todos que passarem por lá terão acesso aos lançamentos mais recentes da Editora FGV.

     

    O destaque deste ano é para o belíssimo livro de fotografias Guanabara espelho do Rio, que terá uma tarde de autógrafos e bate-papo com os autores Custodio Coimbra e Cristina Chacel.

    Vá ao nosso estande no sábado, dia 27, a partir das 16h, e participe!

     

    A Bienal de São Paulo vai até o dia 4 de setembro e conta com uma vasta programação para todas as idades e interesses.

    Para não perder nada, baixe o aplicativo do evento AQUI

    Para aproveitar todo o tempo na Bienal, antecipe a compra do seu ingresso AQUI

     

    O nosso endereço no Pavilhão de Exposições do Anhembi é Rua L - número 68.

    Estamos ansiosos para encontrá-los lá.

    Curta nossa página no Facebook e confira todas as novidades.

     

    Todas as informações estão no site www.bienaldolivrosp.com.br

     

    Confira as mais importantes e divirta-se!

    Horários de funcionamento:

    Segunda à Sexta: 9h às 22h
    Sábado e Domingo: 10h às 22h

    Como chegar?

    Confira AQUI

  • Postado por editora em em 27/07/2016 - 10:03

    Os economistas Pedro Cavalcanti e Renato Fragelli debateram, em artigos publicados no Jornal Valor Econômico entre os anos de 2010 e 2015, suas impressões sobre a realidade econômica brasileira, apontando os limites e desequilíbrios gerados pelo modelo de crescimento adotado pelos governos do período. O resultado está no livro Crônicas de uma crise anunciada: a falência da economia brasileira documentada mês a mês, que publicamos agora.

    Confira a introdução da obra, que tem prefácio do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga.

    Introdução

    "Em finais de 2015, o Brasil passava por sua pior crise econômica desde a recessão provocada pelo Plano Collor há um quarto de século. O produto caminhava para uma retração de 4%. O investimento e a produção industrial caíam há oito semestres, enquanto a taxa de desemprego se elevava mês a mês. A inflação anual já alcançara os dois dígitos. Tudo indicava que a melhoria na distribuição de renda estava sendo parcialmente revertida.
    A crise atual poderia ter sido evitada. Os problemas por que passa o Brasil não foram causados por choques externos, por crise internacional ou por qualquer força alheia ao controle do país. Foram problemas autoinfligidos. Começaram a ser gestados pela política econômica intervencionista adotada após a crise do subprime em 2008 e intensificada ao longo do primeiro governo de Dilma Rousseff.
    O conjunto dessas políticas, que recebeu a alcunha de “nova matriz econômica”, significou uma guinada de 180 graus em relação à rota seguida durante o governo Fernando Henrique Cardoso e o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A racionalidade econômica que havia colocado o Brasil em uma saudável trajetória de crescimento e baixa inflação foi deliberadamente abandonada devido a um diagnóstico errado.
    A nova matriz econômica consistiu na implantação de ideias gestadas em escolas de economia heterodoxas – principalmente Unicamp, UFRJ e, em alguma medida, Eesp-FGV – ao longo de vários anos. Após ter sido defendida pela grande maioria dos economistas desenvolvimentistas, hoje muitos de seus inspiradores rejeitam sua paternidade. Afinal, como se diz popularmente, filho feio não tem pai. Havia quase unanimidade nesse campo a seu favor e mesmo um grande entusiasmo, dado que se esperava aceleração do crescimento, um grande ciclo virtuoso para a indústria nacional, bem como contínua redução da pobreza.
    Seus principais itens eram a redução forçada da taxa de juros – que chegou a 7,25% ao ano em 2012 –, o controle da taxa real de câmbio, a expansão acelerada dos gastos públicos, os empréstimos do Tesouro aos bancos públicos, o aumento da proteção comercial, a ampliação das políticas industriais – via crédito subsidiado, isenções tributárias e favorecimento –, assim como o controle de preços de derivados de petróleo e da energia elétrica.
    O experimento desenvolvimentista fracassou retumbantemente, como se sabe. Muitas das políticas foram gradualmente abandonadas ao longo do tempo, mas deixaram como herança uma enorme desorganização das contas públicas, o crescimento acelerado da dívida pública bruta, o abandono do tripé macroeconômico – metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário –, a estagnação da indústria, a deterioração acentuada do ambiente de negócios, o alto endividamento das empresas estatais – principalmente Petrobras e Eletrobras –, entre outras mazelas que acabaram desaguando na perda do grau de investimento. Tratou-se de uma constatação nítida e bastante dolorosa da inconsistência das ideias heterodoxas.
    Sem querer ser pedantes ou cabotinos, não foi por falta de aviso que o Brasil chegou à situação atual. Essa coleção de artigos publicados no jornal Valor Econômico não teve como objetivo primário, quando do início de sua publicação em março de 2010, a discussão das ideias desenvolvimentistas ou a crítica da política econômica adotada no período. Buscava-se discutir a realidade econômica brasileira, em linguagem acessível ao público não especializado, utilizando conceitos e avanços da moderna teoria econômica dominante. Escritas por macroeconomistas com pesquisas em teoria monetária, crescimento econômico e desenvolvimento, temas nestes campos foram inicialmente dominantes nas crônicas.
    À medida que a política econômica implantada no período passou a contrastar crescentemente com as ideias apresentadas nos artigos, sentimo-nos obrigados a apontar para os leitores do Valor Econômico as inconsistências das ações governamentais em curso. A partir de certo momento, quase a totalidade de nosso espaço foi dedicada àquela empreitada. Obviamente, não estávamos sozinhos, mas desde muito cedo cumprimos nossa missão de alertar para o perigoso caminho adotado. Diante de suas profundas incongruências, aquela política econômica não tinha a menor chance de dar certo.
    Alguns temas, dada sua importância, foram recorrentes. Por exemplo, em um bom número de artigos, chamamos atenção para o fato óbvio de que a taxa real de câmbio e os juros reais são preços determinados por inúmeras forças de mercado – sendo uma das principais a taxa de poupança doméstica. Como tal, estão fora do controle dos formuladores de políticas nos médio e longo prazos. Infelizmente, muitos economistas teimavam e ainda teimam em ignorar fatos tão simples. Alguns dos principais fundamentos da nova matriz econômica não levavam em conta premissas elementares como essas. Uma teoria equivocada leva a um diagnóstico errado que, uma vez implantado, gera resultados desastrosos para a economia.
    Outro exemplo está ligado à atuação dos bancos públicos, em especial do BNDES. Já em nossos primeiros artigos, chamávamos a atenção para o fato de que não compete ao Estado escolher quais serão as empresas vencedoras da economia. A atuação de um banco de desenvolvimento estatal deveria focar-se sobre os setores geradores de externalidades positivas para o resto da economia. Ao conceder à larga créditos subsidiados ao longo dos últimos seis anos, o BNDES deixará um legado penoso, na forma de gastos a serem cobertos pelo Tesouro por muitos anos à frente. Não menos importante foi a contribuição do banco para inibir o desenvolvimento do mercado de capitais. Tudo sem o crivo de instrumentos de avaliação de resultados.
    Finalmente, ao longo desses seis anos chamamos bastante a atenção para avanços recentes do conhecimento, em nossas áreas de estudo, que, de uma forma ou de outra, estão por trás de muitos de nossos artigos e de nosso pensamento.
    A teoria moderna do crescimento econômico tem enfatizado que a diferença de renda entre países não decorre somente de disparidades na taxa de investimento e do estoque de capital instalado no país. Há de se levar em conta o nível de capital humano de cada país, conceito que representa o nível médio de educação, experiência profissional e habilidades da força de trabalho. Igualmente importante é a “produtividade total dos fatores” (PTF), expressão utilizada pelos economistas para denominar o nível de eficiência geral da economia. A PTF sumariza o ambiente econômico, as instituições e incentivos embutidos na regulação, a estabilidade das regras, a estrutura tributária, o grau de abertura econômica, a complexidade burocrática, para citar apenas os principais fatores que estimulam ou inibem a eficiência produtiva numa economia.
    No caso brasileiro, como já bem estabelecido em diversos estudos acadêmicos, o principal fator explicativo do atraso do país em relação aos países ricos não é tanto uma insuficiência de capital físico resultante de baixo investimento. É, principalmente, a deficiência de capital humano e a baixa PTF, ou seja, o país é pobre porque sua mão de obra é pouco qualificada e organiza muito mal seu sistema produtivo. Qualificação da mão de obra e organização do sistema produtivo deveriam constituir as prioridades de uma política voltada para promover o crescimento, em contraste com a tentativa atabalhoada (e frustrada) de aumentar a taxa de investimento a qualquer custo. Embora, hoje, tenha-se tornado lugar-comum falar da baixa produtividade brasileira, essa constatação pouco chamava a atenção de analistas há poucos anos.
    Outro fato que procuramos realçar foi a transformação estrutural por que passam as economias capitalistas, ao longo do processo de desenvolvimento. Na primeira fase, ocorre a gradual migração de mão de obra oriunda da agricultura de baixa produtividade em direção à indústria. Numa segunda etapa, a indústria perde parte de sua mão de obra, que migra para o setor de serviços. Esse padrão foi observado em todas as economias hoje ricas. Ora, se o setor de serviços será o dominante no futuro, a ênfase das políticas setoriais deveria estar na melhoria da produtividade nesse setor – que é muito baixa no Brasil –, e não em políticas industriais. Políticas voltadas para o setor de serviços envolveriam educação, treinamento, implementação de um sistema tributário adequado, entre outras ações.
    Ao insistir numa política industrial calcada no velho conceito da indústria nascente, o Brasil desperdiçou recursos para dar sobrevida artificial a setores inviáveis. Em alguns casos, como na tentativa de ressuscitar a indústria naval, repetiram-se os mesmos erros cometidos
    no passado, numa melancólica demonstração de que o país não conseguiu aprender sequer com sua própria experiência.
    Enfim, os artigos aqui reunidos não consistem em mais uma simples apresentação de uma visão liberal da economia, como alguns poderiam considerá-los. Trata-se da análise da realidade brasileira utilizando avanços recentes e estabelecidos do conhecimento econômico acadêmico.
    A teoria econômica identifica situações em que o livre funcionamento dos mercados não leva ao melhor equilíbrio econômico, como diante de externalidades, ganhos de escala, barreiras naturais à entrada de novos competidores, assimetrias informacionais, para citar os mais usuais fatores. Nesses casos, a omissão do Estado leva a ineficiências, distorções alocativas, concentração de renda e outros males.
    Mas as intervenções levadas a cabo no passado recente brasileiro elevaram as distorções – por exemplo, mediante aumento da proteção comercial e congelamento de preços. Em muitos casos – como na atuação do BNDES –, além de aumentar as distorções, a ação do Estado concentrou renda e beneficiou os ricos acionistas das empresas contempladas por créditos subsidiados ou isenções. Foram intervenções erradas e mal implantadas, sem qualquer embasamento teórico sólido, como buscamos mostrar, desde 2010, em nossos artigos no Valor Econômico agora reunidos neste livro."
     

    A obra será lançada dia 28 de julho, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.

    Av. Afrân

     

    Crônicas de uma crise anunciada: a falência da economia brasileira documentada mês a mês

    Autores: Pedro Cavalcanti Ferreira, Renato Fragelli Cardoso

     

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